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No Inferno: a crítica de Ricardo Riso

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Ricardo Riso, brasileiro especialista em literaturas africanas de língua portuguesa, assistiu à apresentação da peça "No Inferno", no FESTILP, no Rio de Janeiro e escreveu uma crítica ao espectáculo que, com a devida autorização, passamos a publicar:


Uma feliz adaptação de um difícil texto de Arménio Vieira
Por Ricardo Riso

O que podemos esperar de uma peça teatral? Que ela tenha um elenco afinado e competente, uma direção segura, iluminação e música em sintonia com os factos narrados, um figurino coerente com o tema, dentre outros factores. O que acontece quando se encerra um espectáculo e encontramos o que foi supracitado e ainda nos deparamos com outras agradáveis surpresas, superando nossa expectativa? Só nos resta aplaudir, de pé, é claro, com o sorriso de satisfação escancarado e cumprimentar os integrantes da companhia teatral nos camarins. Tudo o que foi relatado até aqui é exatamente o que sentimos ao término da peça “No Inferno”, texto do cabo-verdiano Arménio Vieira e encenada pelo Grupo de Teatro do Centro Cultural Português – Mindelo/Cabo Verde, no FESTLIP 2009.

Com direção do competentíssimo João Branco, o GTCCPM foi criado no ano de 1993 e já encenou quarenta e três peças, mostrando um fôlego impressionante. O GTCCPM é hoje referência teatral em Cabo Verde e já levou para os palcos textos dos compatriotas Eugénio Tavares, Germano Almeida e Mário Lúcio Sousa, adaptou peças para o crioulo de clássicos da dramaturgia como Shakespeare, Garcia-Lorca e Samuel Beckett, além de encenar textos de autoria própria. O grupo ainda dá continuidade a sua vocação para a formação de novos actores para o teatro cabo-verdiano.

Para a apresentação no FESTLIP, o grupo encenou um texto complexo e difícil, que se refere a vários escritores tais como James Joyce, Cervantes, Shakespeare, Jorge Luís Borges, Dostoievski dentre outros cânones da literatura ocidental. A peça trata de um escritor que é trancafiado em um castelo. Sem memória, ele não sabe como ali chegou até que um telefone toca e várias regras são passadas em um discurso polifônico em que é apresentado a ele que deverá escrever um romance para conseguir sua liberdade, entretanto, somente conseguirá atingir o objetivo se um “júri” competente considerar sua criação uma obra-prima. Para tanto, ele terá uma vasta biblioteca para consulta – pois as vozes ao telefone acusam-no de ter pouca leitura, ou, se preferir, tentar decifrar inúmeros códigos que levariam anos e anos para ter sucesso.

Angustiado, o escritor parte para a criação de seu romance, mas, logo depara-se com o drama da folha em branco, da ausência de criação. O que escrever diante de tantas obras já feitas? Ele recorre à biblioteca sem sucesso, pois, contrariando o que havia sido dito pela voz ao telefone, é possuidor de uma imensa cultura literária, conhecedor de todos os clássicos da literatura. O tempo passa, seu desespero aumenta, sem contato com o mundo exterior fechado em si próprio. Fantasmas aparecem e o atormentam, revelando o inferno da criação. O branco do papel, o vazio da criação em contraste com toda a erudição que possui e com tudo já foi escrito; pólos extremos que configuram a própria morte do romance, o seu fim como gênero literário, daí ser infestado de metalinguagem, inclusive teatrais na adaptação.

“No Inferno” fala do interminável momento de caos do escritor, da atemporalidade do bloqueio criativo, da solidão a que isso reporta, que remete o escritor a ser uma ilha, isolado em um mundo de tantas possibilidades às quais não consegue atingir.

Com um elenco impecável e afinadíssimo que explora muito bem a ironia característica de Vieira, composto por Arlindo Rocha, Elísio Leite, Fonseca Soares e pelo bárbaro Manuel Estevão, destacando o seu impressionante trabalho de voz; a música tensa e correta de Caplan Neves; iluminação de Edson Fortes, figurinos de Elisabete Gonçalves e cenografia e direção a cargo de João Branco, o GTCCPM presta uma justa e bela homenagem a Arménio Vieira ao realizar esta adaptação de “No Inferno”. Peça que deveria merecer uma temporada no Rio de Janeiro.

Fonte: www.ricardoriso.blogspot.com




No Inferno: uma reacção

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"Nesta terrinha bonita di meu, os críticos se confundem ainda com mandadores de boca, mas sei que bem lá no fundo este é um defeito superficial e que este é um grande país povoado de génios e talentosos amantes da cultura que apenas não se mostram porque são anónimos por obrigação ou nem por isso. Aproveito a grande democracia de opiniões e sugestões reinante nesta aldeia para mandar uma das minhas bocas: a peça “No Inferno”, adaptação do livro “No Inferno” de Arménio Vieira, excelentemente adaptada ( por que não também dizer criada) por João Branco, que leva ao palco quatro actores de grande inteligência e de finíssimo talento, merece no mínimo uma tournée nacional para dignificar o trabalho de equipa feito pelo grupo envolvido. Isso para não dizer “ uma tournée nacional no sentido de abrir a cabeça aos mais incautos, aprofundar a prática da cultura teatral entre a classe política, estudantes e jovens empreendedores ou não, fomentar a leitura de autores nacionais e mandar a bardamerda os autores de patacos, na literatura auto financiada como da manhosa poesia do zouk Nacional”. Por isso parabéns a Elisabete Gonçalves pelo figurino, a Carla Correia pelos objectos cenográficos, a Edson Gomes pelo desenho de luz, a Caplan Neves pela música original (belíssima surpresa), a João Branco, e claro aos actores Arlindo Rocha, Elísio Leite, Fonseca Soares, Manuel Estevão todos magníficos. A Manuel Estêvão no papel principal um forte aplauso pelo trabalho de voz, pela pujante interpretação. Ao conde que nos levou aso Inferno...um obrigadinho…."

Abraão Vicente (www.alamarginal.blogspot.com)


Fotografia: Doca


Sublime Máscaras

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Sublime é o epíteto que melhor casa com "Máscaras", a peça baseada no poema de Menotti del Pichia que sobe hoje, 28, ao palco do auditório do Centro Cultural do Mindelo. Co-produzida pelo Grupo de Teatro do Centro Cultural Português - IC e a Companhia de Dança Raiz di Polon, a obra é de uma beleza comovente que nasce das palavras de Arlequim, Pierrot e Columbina. Personagens a que dão vida o Arlindo Rocha, João Branco e Romilda Silva, no cenário criado por Bento Oliveira e coreografia de Manu Preto e Beti Fernandes. (...)

A peça não seria entretanto tão marcante se os olhos de quem a vê não vissem também um cenário que conduz ao sonho. Tal como em "Auto da Compadecida", Bento Oliveira surpreende em cada detalhe, ajudado pelas máscaras de Abraão Vicente, pela indumentária de Elisabete Gonçalves e pelos objectos de Artur Marçal. Todos juntos criam um mundo de plasticidade com cara e cheiro a Cabo Verde. 

É nesse cenário que passeiam duas figuras estranhas - interpretadas por Manu Preto e Beti Fernandes - cujo talento é já reconhecido e premiado, e que dançam e se movimentam ao som da música de Vasco Martins e fazem recordar Orlando Pantera ao proferir excertos da letra de "Lapidu na Bo", do falecido compositor.

E mesmo que esta peça não despertasse todos os nossos sentidos, valeria pelo intercâmbio e cooperação que espoletou ao congregar talentos e esforços de três ilhas - Santo Antão, S. Vicente e Santiago -, mostrando assim que é maior aquilo que nos une do que as águas do mar que nos separam neste nosso pequeno Cabo Verde.


Teresa Sofia Fortes - Jornal A Semana (28 Novembro 2008)  

 

O Amor de Arlequim e Pierrot aplaudido na Praia

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“Um fala do céu... o outro fala da terra!”

Imagine assistir a algo onde consiga encontrar um pedaço de si em cada personagem que caminha, em cada palavra transmitida, em cada sentimento sentido. “As Máscaras” são isto e muito mais… 

Margarida Conde - jornalista

O Amor. O “Fogo que arde sem se ver” de Luís de Camões, o “traje” de Bernardo Soares “que como não é eterno, dura tanto quanto dura” ou aquele que segundo Eugénio Tavares “é mar quando está manso, geme com gosto, ama no descanso”. Várias formas de ver uma”estranha coisa chamada amor”. 

Menotti Dell Pichia, poeta, escritor e pintor modernista brasileiro escreveu “Foi assim: deslumbrava a fidalga beleza da turba nos salões da Senhora Duquesa” e João Branco imaginou... “Um dia o actor brasileiro Cadú Favero olha para mim e diz-me que tem um sonho. E diz-me mais: que eu entro nesse seu sonho. Que sonho é esse, pergunto. A resposta não tardou e veio acompanhada da primeira fala de um texto poético-teatral que não conhecia, num bom sotaque carioca”. De imediato, uma montagem cénica no pensamento, “um relâmpago criativo, que apenas poucas vezes na vida ousamos experimentar”, diz João Branco. 

A peça teatral “Máscaras” era o próximo desafio. O Amor... de Arlequim e Pierrot por Columbina. Dualidades eternas. Em cada um deles há um pouco de cada um de nós. “O primeiro é o que beija o sonho, o segundo o que sonha com o beijo e a terceira a que ama, sem dó nem piedade o sonho e o seu espelho”.

Directamente do Mindelo para a Praia. Um hino ao Amor fez-se ver, ouvir e impressionar no Auditório da Assembleia Nacional. “Um espectáculo de palavra” que move-se em torno de três personagens, que se interligam, que suspiram os seus desejos emocionais e carnais numa “interpretação cantada, ou se quisermos quase suspirada”. 

Enquanto Arlequim e Pierrot piscam o olho a Columbina, cada um com o seu estilo, romântico ou explosivo, sereno ou fugaz, dois seres anónimos, “sem rostos, corpos deformes… deambulam pelos cinco sentidos, se tocando, se beijando, se vendo”, presenciando uma história de um trio amoroso. Duas interpretações dançantes, várias máscaras a deambularem pelas suas mãos e rostos. Mano Preto e Beti Fernandes, os bailarinos da Companhia Raiz di Polon, dão vida ao espectáculo com os seus incontornáveis gestos e expressões. 

Sussurra-se as últimas palavras… “Porque a história do amor só pode se escrever assim: Um sonho de Pierrot E um beijo de Arlequim!”. A plateia quase cheia do auditório aplaude de pé. O pano desce e fica-se com o sentimento de missão cumprida. 


Um espectáculo mais maduro

João Branco, encenador e director artístico do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português, apenas teve um desejo quando as palmas soaram pela sala. “Que levassem alguma coisa. Geralmente, costumo dizer que o mais importante é que as pessoas possam ser um bocadinho mais felizes, depois de serem confrontadas com aquilo que fazemos. Que tenham crescido enquanto seres humanos. Além disso, a arte cénica é muito transparente, nós damos aquilo que recebemos, não há bons e maus públicos, o que há é bons e maus espectáculos”. 

Sair do estereótipo básico do amor. Foi uma tarefa cumprida nesta peça que cativa pela escolha dos figurinos, musicalidade, desenhos de luz, cenário, bailarinos e interpretações espontâneas e sentidas. “Este texto demonstra que se pode celebrar o amor sem ser de forma vulgar, especialmente num lugar como Cabo Verde onde o amor é exaltado de uma forma demasiado “pimba”, seja através da influência das novelas ou das letras do zouke, - e eu até gosto de algumas novelas e de uma vertente do zouke que me permite dançar. Mas há sempre outra maneira de se fazer as coisas”. 

Os bailarinos. Duas figuras misteriosas, mascaradas, com um “je ne se quois” de misticismo e sedução, esvoaçam pelo palco trazendo consigo a riqueza dos movimentos. Os seus corpos brincam como duas crianças ao sabor do vento. “Não há perfeições na criação artística. Costumo dizer aos meus alunos que no dia em que fizerem a peça de teatro perfeita têm de parar de fazer teatro e partir para outra esfera de actuação. É por isso que considero a junção da companhia Raiz di Polon com o Grupo de Teatro do Centro Cultural Português muito interessante e resulta essencialmente da admiração que ambas as companhias têm uma pela outra, e do facto do trabalho de cada uma ser muito diferente, conjugando linguagens desiguais, permitindo uma grande aprendizagem mútua. Acerca do espectáculo na Praia, o Mano Preto disse algo muito acertado - «hoje senti que tínhamos uma co-produção». Uma sensação que não existia no Mindelo, porque não houve muito tempo para estarmos juntos. Este espectáculo está, pois, mais maduro”, revela João Branco, assumindo-se na “vida real” como uma mistura do que “beija o sonho e o que sonha com o beijo”. 

“Claro que há uns que têm mais tendência para a componente do desejo, ou seja, para a componente física, que é a muito cabo-verdiana. Sonhar aqui com um amor platónico chega a ser considerado um pouco maricas”, ironiza o encenador. 

Com interpretações de João Branco (Arlequim), Arlindo Rocha (Pierrot) e Romilda Silva (Columbina) e com uma participação especial de Mayra Andrade e Mário Lúcio Sousa, as “Máscaras” partiram da Praia de volta ao Mindelo, onde nos próximos dia 28 29 e 30 de Novembro, no Centro Cultural, preparam-se novamente para impressionar… 


Notícia publicada na última edição do jornal Expresso das Ilhas

Fotografia de Baluka Brazão


Máscaras na Praia - Reacções

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A apresentação da nossa produção «Máscaras» na cidade da Praia, em conjunto com a companhia Raiz di Polon, foi muito positiva, apesar das grandes dificuldades técnicas inerentes ao péssimo material existente no auditório (dito) nacional. Mas nós todos sentimos que o desafio foi vencido e o público conquistado. Os ecos da nossa actuação não se fizeram esperar.

Eis algumas das primeiras reacções, via comunidade de blogueiros berdianos:

Crónicas Sujas, de Abraão Vicente

Depois de ter visto a estreia no Mindelo, ontem na Praia a peça “Máscaras”, pareceu-me mais madura, mais coerente e confirmou os seus pontos fortes: o texto, a banda sonora e o desempenho do Arlequim (João Branco). Um peça rica, sem economia e recursos (ou de Cultura). Gosto da ideia de uma colaboração entre o Grupo do Mindelo e os Raiz di Polón, mas não acredito que essa seja a peça ideal para que tal aconteça. Mais teatro na capital Precisa-se.


Sei que Quero Saber, de Margarida Fontes

Máscaras que impressionam! Fui, Vi ... amei. O texto é envolvente, apaixonante e actual. A partir do poema "Máscaras", de Menotti del Pichia, poeta, escritor e pintor modernista brasileiro, uma história sobre três personagens que fazem um hino ao amor. Nostálgico, entusiasmante e com apontamentos estratégicos de humor. Três figuras centrais... Arlequim, Pierrot e Columbina. Em cada um deles há um pouco de cada um de nós. (...)Parabéns ao João Branco e ao elenco pela audácia teatral, capacidade surpreendente em palco, naturalidade artística e principalmente por nos dar a conhecer este "espectáculo da palavra". Como ele próprio disse é impossível dizer-se que na Praia não se vai ao teatro... A sala estava quase cheia! Venham mais destes!


Crónicas de mim para mim, de Margarida

Parabéns pela escolha do texto: Brilhante! Uma excelente interpretação do poema "Máscaras" pelo Grupo de Teatro do Centro Cultural Português e Companhia Raiz di Polón. Uma noite feliz no Auditório Jorge Barbosa. Parabéns ao Arlequin atrevido. Um Arlequin de paixões e beijos intensos; teatral como se quer. Às vezes com uns laivos de "criolização" muito pertinentes! Valeu o doce e terno Pierrot, em equilibrio com esse Arlequin exuberante. Valeu pelo amor e pela paixão representados em palco através de duas fantásticas personagens que realmente levantaram o véu sobre dois grandes actores. Muito bonito, o movimento de cena dado pelas "duas máscaras" bailarinas e a beleza da Colombina do alto do seu pedestal. Venham mais vezes à Praia e ousem sempre! Parabéns e como diz o João, afinal há público para o teatro na capital!


Tempos de Lobos, de Mário Almeida

Fui espreitar, ontem, a peça de teatro «Máscaras» do João Branco [com Mano Preto escondido por trás de uma máscara]. Gostei da peça, do primeiro ao ultimo acto, que não foi no palco mas na plateia, com a improvisada (?) provocação aos presentes. Essa espécie de desenredo, que desperta pela sua imprevisibilidade, quase que responsabiliza as pessoas por aquilo que andaram a ver, confrontando a arte com as suas vidas. O melhor exemplo disso, no cinema, talvez esteja presente n' «O Sabor da Cereja» de Abbas Kiarostami: depois de passear, pelo enredo, a figura trágica do protagonista até ao suicidio, o cineasta nos deixa ver os bastidores das imagens das filmagens, questionando por dentro a própria obra, sem ligar aos «anseios» ficionistas do público. O efeito é estranho e obriga todos, igualmente, a questionar. Estranho, tambem, é o modo como soa a mediação de um fragmento textual, tirado a papel químico, das composições de Orlando Pantera no decorrer de uma cena teatral desse estilo. Fantástico! Ontem só faltou mesmo aquele beijo real (de que tanto se poetizou) a um felizardo qualquer que estivesse nessa halloween de alta definição.


Notal final: contamos brevemente poder colocar algumas fotografias do espectáculo.


Imagem: Abraão Vicente sobre impressão de da Vinci


Morreu Carlos Porto

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Uma triste notícia para o teatro lusófono: morreu o crítico de teatro e dramaturgo Carlos Porto.

O crítico de teatro e dramaturgo Carlos Porto morreu hoje aos 78 anos, em Lisboa, vítima de pneumonia, disse à agência Lusa fonte próxima da família.

Carlos Porto, pseudónimo de José Carlos da Silva Castro, nasceu no Porto em 1930 e notabilizou-se sobretudo na crítica de teatro durante quase cinquenta anos, sobretudo no Diário de Lisboa e no Jornal de Letras.

Maria Helena Serôdio, directora da revista Sinais de Cena e amiga do crítico de teatro, recordou hoje à agência Lusa que Carlos Porto «foi um dos grandes fazedores de opinião pública em termos de teatro». «Era um crítico muito respeitado e por vezes muito temido, que provocou algumas polémicas, mas que respondeu sempre com coragem e frontalidade», disse Maria Helena Serôdio, reforçando o papel que Carlos Porto teve na década de 1970 na divulgação do trabalho de Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo.

Foi, sobretudo, no Diário de Lisboa que Carlos Porto se destacou, disse Maria Helena Serôdio, «como combatente absolutamente decidido e corajoso sobre a liberdade do teatro, sobre a inovação e sobre o profissionalismo». Chegou a escrever algumas críticas sobre peças de teatro cabo-verdianas participantes nas primeiras edições do FITEI, no início dos anos 90.

(Na fotografia, com a esposa)

Crítica de «O Doido e a Morte»

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Niilismo cômico

Crítica da peça «O doido e a morte», que integrou o FESTLIP
De Humberto Giancristofaro

A trama da peça O Doido e a Morte, texto de Raul Brandão encenado pelo Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, de Cabo Verde, parece fácil de ser descrita: um doido entra no gabinete do governador com uma bomba. O modo como os personagens lidam com essa situação revela uma sátira cheia de espirituosidade e dotada de um estilo bem humorado de ver a vida através da morte.

Aos poucos, três elementos se revelam e se mostram relacionados sob duas forças, dois movimentos distintos. O primeiro elemento é composto por dois artifícios: uma grande tela branca ao fundo do cenário, que assume cores marcantes com a luz e que vai acompanhando as mudanças de tons do espetáculo; junto com efeitos sonoros que dão máxima expressão a pequenos detalhes; essa sonoplastia ressalta especialmente os movimentos mímicos. A tela não é bem um plano de fundo: os poucos objetos que compõem o cenário são transparentes ou vazados, de forma a sempre incorporar a cor que irradia de trás e que se torna dominante na cena. Essa cor refletida ajuda a compor o fundo da história, como se retratasse o que está por trás de tudo o que se passa, além de exercer certa influência no momento da cena. Junto com a história não contada da vida de cada personagem, ela vai compor um elemento que se prende a marcas do passado, e é esse plano que contextualiza subjetivamente toda a história.

O segundo elemento são os personagens. Não há nenhuma relação social entre os dois personagens principais da peça, o Governador e o doido Sr. Milhões, mas eles são figuras acopladas, chegam a se declarar almas irmãs, fato que é importante para entender a conexão entre eles. Essa irmandade está na similaridade entre seres opostos. A ligação existe por que esses personagens sugerem apenas intensidades diferentes de uma mesma coisa: são personalidades que fogem da representação e do comum. Um quer ser um gênio e o outro quer ser um doido. O papel de ambos parece constantemente se inverter: o doido racionaliza sua descoberta filosófica e o esperto se desespera e endoidece de medo.

O terceiro elemento é o lugar da ação. O espaço da cena se resume ao gabinete do Governador, os personagens estão presos lá dentro, circunscritos a uma realidade momentânea e fatídica. Porém, este gabinete guarda toda a vida dos personagens, é nele que o Governador passa o seu dia, lendo, jogando golfe e escrevendo suas peças de teatro.

A bomba, guardada numa caixa, se mantém intacta, mas detona uma tensão entre os três elementos citados. Ela é uma força que vem de fora e atinge os personagens, forçando-os a reagir. Com a morte como única saída, todos os três elementos da peça ganham intensidade. A relação entre eles, forçada pela presença da bomba, gera basicamente dois movimentos. Primeiramente, um movimento centrípeto, no qual a sua vida e o conforto do seu gabinete parecem se desmoronar e ruir. Por um momento se descobre a futilidade e os desperdícios vividos - um peso que esmaga os personagens. O outro movimento, centrífugo, surge de dentro deles, do cárcere pessoal, e impele para a fuga. Qualquer saída é válida, cada um a seu modo se contorce para alcançar a sua. A porta do gabinete não existe no cenário e é sempre atravessada com gestos mímicos de abrir e fechar, por isso parece não ser uma opção real de fuga. O governador, por fim, trai todos os seus princípios morais para sair dali, chega a trair a si mesmo, entregando-se para seu único confessor possível, o doido, como grande mentiroso; enquanto o intransigente Sr. Milhões só vê uma forma de completar o ciclo niilista: explodir-se e desintegrar-se para que sua poeira seja dissipada pelo cosmos.

O destino dos personagens já parece estar indicado desde o início pelo uso de máscaras: elas apontam para o desfigurado, para aquilo que não pode mais expressar sentidos pelo canal da comunicação visual. A impressão que a peça nos traz aos poucos vai sendo sentida, não de forma cognitiva, mas pela intensidade sensorial e de tensão que ela nos causa. Alguns recursos cômicos explorados pelo diretor João Branco - como os movimentos em câmera lenta ou acelerada, ou o momento em que o Governador não compreende os devaneios filosóficos do Sr. Milhões e este rebobina suas falas e ações para repeti-las - compõem uma série de movimentos anômalos que desloca a narrativa para uma situação imaginária, que não precisa obedecer ao real, e pode assim enfatizar ou mostrar novamente o que não foi visto. O Sr. Milhões nos dá essa dica na fala: "Os livros, as peças, a arte, enfim, só valem pelo que sugerem. O que está lá em regra não presta para nada; o que cada um de nós constrói sobre a linha, a cor e o som é que é verdadeiramente superior." Ele parece nos dizer que o invisível, sugerido nas relações de forças da peça, traz à tona não um processo reflexivo, mas criativo. Essa é uma outra resposta possível para o niilismo que se coloca na peça: diante do vazio existencial, é possível preenchê-lo, é possível criar, é possível construir a diferença a partir do desfigurado, sem fugir da infinitude do tempo, mas indo em busca do tempo perdido.

Deliciosa «Última Ceia»

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Comentário da peça «A Última Ceia», por Abraão Vicente:

Meio adormecido pelo clic, cada vez mais perceptível, da permanência e dos cenários mutantes, vou adiando palavras marginais. Porém, há sempre o momento em que toca o gongo e alguém em tom maroto anuncia qualquer coisa como:” o mundo vai acabar, dentro de cinco horas…”. Quando não há comparações, parece que o excelente, o sublime pode morar em qualquer acto de boa vontade. Apressados, sem onde pegar para assemelhar, gritamos estrondosos Urrass e Vivas, aplaudimos (nunca o suficiente) e nos vamos embora contentes com o que se nos ofereceu. Mas não. Esse não é definitivamente o caso. Falo-vos de um momento pleno, cheio de mágica, de risos espertos, de elevada iluminação. Um momento em que foi banido a pasmaceira da nossa aldeia e se fez teatro. No final Djinho Barbosa não resistiu e soltou:” isto é teatro aqui, na China, Austrália, Paris ou Nova York”. Sim aplausos, aplausos, aplausos para o Grupo de Teatro do Centro Cultural português do Mindelo. Delicioso foi ver, a primeira vez para mim, João Branco in cena. De resto acredito que só a prática e a experiência podem explicar a excelência do trabalho desenvolvida pelo João Branco e pelo GTCCPM. Acrescento já agora a dose precisa de inteligência para pesquisar, adaptar e por no palco textos tão fabulosos como “Apocalypse Now” de Rui Zink. Lembro-me perfeitamente o dia em que devorei esse tal livrinho, no meu quartinho de estudante na Rua Gonçalves Crespo, 27, 1, Picoas, Lisboa. Thanks JB e GTCCPM, foi muita Merda mesmo.

«Mulheres na Lajinha»: Crítica

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O espectáculo Mulheres na Lajinha do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo (GTCCPM) a partir do livro «Mar da Lajinha» de Germano de Almeida, agradou mas não surpreendeu. Na memória do público ainda estava o surpreendente «Auto da Compadecida» do ano anterior, e como o espectador exige sempre mais, a produção deste ano ficou um pouco aquém das espectativas. Mas se a espectativa malogrou, a sua efemeridade foi ganha, pois o público se divertiu, passou um serão agradável.

Quatro mulheres encontram-se na praia da Lajinha e aí desenrolam um novelo de conversas passando por saudades, sexo, adulterio, sofrimento, etc., temas banais, que tanto podiam ser na lajinha como noutra parte do mundo.

O espectáculo foi eficaz ao nível de leveza e divertimento, levando á certa identificação do espectador com aquelas mulheres. Mas foi no entanto, composto de risos fáceis, caindo muitas vezes em clichets esgotados e denotando até alguma fragilidade tanto a nível de encenação como de texto dramático. Mas não era de todo uma dramaturgia complexa, mas sim um deambular de pensamentos e riolas que facilmente encontraremos nos espaços do feminino.

Ludmilla, Zenaida, Bety e Sílvia, mais uma vez corresponderam ao esperado com uma energia cantagiante e digna de muitos aplausos. E se dramaturgicamente a peça não seria tão interessante, ao nível da interpretação foi bastante exigente e consequente. Com a sua marcante expressividade e entrega, estas mulheres, seiva do espectáculo, conquistaram-nos e levaram-nos com elas nas suas aventuras.

Ao nível da cenografia, sem grande complexidade, os elementos apresentados estavam perfeitamente resolvidos, sem no entanto nos seduzir. A luz acompanhou o bom ritmo da acção e claramente se encontra bem resolvida todas as questões cénicas, e em momentos pontuais deparamo-nos com francas belezas imagéticas.A certo momento sente-se que nada de novo nos traz este espectáculo, sem que no entanto isso o prejudique. A plateia gostou de leveza e de poder rir com estas mulheres durante esse tempo ritualista do teatro. João Branco, com um considerável manancial de encenações, cria de certo modo um horizonte de espectativa, o que é bastante interessante, mas devido a isto mesmo, sentiu-se este espectáculo mais como um “entre-acto” do que propriamente uma produçao “de peso”.

Não surpreendeu, mas convenceu.

Micaela Barbosa

Contagem decrescente

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«Pergunto-me se se terá visto alguma vez nesta cidade um espectáculo teatral tão completo e, ao mesmo tempo, tão sóbrio; tão belo e, ao mesmo tempo, tão austero; tão recapitulativo em termos estético-teatrais e, ao mesmo tempo, tão enxuto e tão articulado; tão narrativo e, ao mesmo tempo, tão elíptico; tão evasivo e, ao mesmo tempo, tão pleno, tão redondo; um espectáculo tão imprevisível, com inúmeras estações de surpresa, e, ao mesmo tempo, tão contido ou tão medido. Tão concebido, tão subtil.»

G.T.Didial – Horizonte



Espectáculo único
Dia 11 de Julho
Iniciativa e apoio do Centro Cultural do Mindelo

Contagem decrescente

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«Uma hora de magia cénica, de genuino esplendor teatral. Tal foi o espectáculo Clown Creolus Dei, montado por Miguel Seabra com actores cabo-verdianos.»

G.T.Didial – Horizonte



Espectáculo único
Dia 11 de Julho
Iniciativa e apoio do Centro Cultural do Mindelo

Contagem decrescente

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«‘Cloun Creolus Dei’ é um espectáculo preenchido de humor e de grande lucidez e domínio do risco. Aparentemente simples, acaba por tocar na alçada de grandes temas do universo religioso que é a ideia do medo, da autoridade sempre vigilante, do desconhecido a que se deve a obediência.»

Luis Bizarro Borges – Jornal de Notícias



Espectáculo único
Dia 11 de Julho
Iniciativa e apoio do Centro Cultural do Mindelo

"Mar Alto" na Praia: o que foi dito

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Confirmada que foi a nossa participação no FITEI de 2006, vamos recordar o que foi dito sobre a peça "Mar Alto", após a sua apresentação na Praia, no Auditório Nacional. Esta foi recebida com bastante entusiasmo por quem teve oportunidade de assistir. O jornalista de um dos semanários da nossa praça não hesita em nomear esta peça como "a melhor produção cénica do ano".

O escritor e poeta Filinto Elísio dedica parte da sua crónica semanal no jornal Horizonte, ao comentário da peça Mar Alto, cujo teor publicamos aqui, com a devida autorização e agradecimento ao autor:

"Nos últimos dias assisti no Auditório Nacional Jorge Barbosa a peça teatral Mar Alto, interpretada pelo Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo. Não farei aqui uma recensão crítica da peça, até porque me faltaria engenho e arte. Apenas direi que gostei muito, muitíssimo. Quer da dramaturgia em si, quer da encenação. E já agora, curvo-me humildemente diante a interpretação dos três actores que, numa jangada estilizada e numa deriva faz de conta, deram dimensão dramática aos textos de Eugénio Tavares. E direi que os textos de Eugénio Tavares, enquanto crítica social e política, continuam actuais e oportunos. Aliás, a genialidade destes textos reside na sua explicita irreverência. E na sua implícita sapiência na relativização dos valores, ditos absolutos, como a Democracia, a Governação e a Civilização.

A peça teatral Mar Alto nos permite ver e matutar sobre tudo isso, adaptando a essência ao espírito da época, o que não têm sido apanágio de alguma proposta artística nestas paragens., geralmente acríticas e comportadas. A Arte é um grande exercício da liberdade (ou das liberdades, para ser menos inexacto e Mar Alto disse-o bem..."

O jornalista António Monteiro, por sua vez, destaca a interpretação do trio Manuel Estevão, Fonseca Soares e Paulo Santos e considerou-os, não sem uma ponta de exagero, "provavelmente três maiores actores dramáticos da actualidade".

Crítica Teatral: O Doido e a Morte

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O Grotesco nos Palcos da Praia
Por Micaela Barbosa
(cortesia do jornal A Semana)


Um poderoso desmascarado e um louco que desmascara, algo nos estranha nesta premissa e mostra a relatividade do homem, a relatividade das relações sociais e humanas. E é também de relativismo que nos fala, dum relativismo constrangedor, caótico, e desconfortável para quem procura um «assento confortável». È o relativismo do poder social, o relativismo do poder criativo, o relativismo do poder familiar, o relativismo do tempo.

Falamos concerteza da peça O Doido e a Morte, do português Raul Brandão, com encenação de João Branco, apresentada pelo grupo de teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, nos palcos da cidade da Praia no último fim-de-semana.

O espectáculo trouxe à Praia as questões existenciais tão pouco presentes no panorama teatral desta ilha. Por momentos temos o privilégio de abandonar o engajamento tradicional tão comum por estas bandas para vermos perante os nossos olhos as questões de todos nós, homens e mulheres, nascidos a norte ou a sul.

Por duas noites a cidade da Praia teve o privilégio de questionar a vida, de questionar a morte, e sobretudo, de questionar a subjectividade destas duas faces do homem. E se a morte foi o motivo, o argumento para a criação dum universo de ficção na vida do Governador, foi ainda pelo trabalho ficcional de João Branco que pudemos ver tão eficazmente este desmontar do paradigma vida/morte. João, como aliás é sabido, mais uma vez foi mestre na actualização do texto nas tábuas. O encenador respeitou o texto na integra do autor português, unicamente inseriu no inicio do espectáculo algumas deixas que remetem para um contextualizar espacial da cena e ainda um extracto dum texto alusivo à realidade teatral, que muito inteligentemente deixou em aberto a sua justificação, remetendo para quem vê, a sua actualização a Cabo Verde ou ainda a uma questão universal do fenómeno teatral. De notar que JB usou na peça aquelas últimas palavras do texto, que Raul Brandão desejou, as tão fortes palavras que «ofendem a decência dos ouvidos das senhores», e que tão eficazmente rematam o drama.

O espectáculo conquistou o público desde o seu início com tão inusitado abrir da ficção.

Na hora marcada abrem-se as portas, o público entra e depara-se já com a cena instalada, não há mais lugar para fuga. Já é cúmplice. Nos momentos a seguir vive-se teatro na sala do CCP, teatro na verdadeira e pura acepção do termo, vemos nitidamente os actores ao lado das personagens, vemos nitidamente o espaço e tempo de ficção ao lado do tempo real. E só conseguimos ver isso confortavelmente porque no palco representa-se, «faz-se de conta» duma maneira tão maravilhosa que não nos incomoda nada ver os actores no palco mesmo fora da ficção, aliás a dado momento eles são invisíveis para nós, já ninguém acredita que eles lá estão. É isto que é o teatro, convencer o espectador deste faz-de-conta, torná-lo cúmplice.

A encenação fazendo jus a tão simbólica e grotesca dramaturgia, apresenta-nos uma estética bastante grotesca e algo caricaturada.

O cenário simples, algo estranho (encontramos uma cenografia do mobiliário muito atemporal ao lado de alguns adereços bem marcantes temporalmente) é por si mesmo de um estranhamento interessante pelo grotesco e híbrido que apresenta, obviamente eficaz. Neste jogo combinatório situam-se também os figurinos. Mas é importante ressalvar que nestas duas questões algo salta à vista do espectador: o carácter sóbrio e convencional - nada está em exagero e tudo é obviamente de ficção. O uso da máscara vem assim compor o conjunto fechando com chave de ouro a teatralidade plástica que se procura nesta peça e sublinhando o conteúdo grotesco do tema. Foi notório o trabalho prévio sobre a técnica da máscara na performance dos actores não deixando no entanto de ser notado algumas dificuldades a nível da visibilidade e que por vezes chamava à atenção do espectador atento. Mas é interessante concluir que no meio de tanto absurdo, nem isso foi incómodo na peça. Assim como a porta do escritório do governador que por várias vezes os actores esqueciam da sua existência.
Percebe-se perfeitamente que este espectáculo teve um período considerável de ensaios, de produção e dedicação, pelo trabalho profissional ao nível da performance dos actores de marcante teatralidade (segundo o encenador, a teatralidade é o pilar desta encenação), pela precisão com que foram criadas e operadas a luz e a sonoplastia, assim como a necessária e interessante realização dum texto programático, que trouxe até ao público a consciência de produto maduro, acabado.

A sala estava composta de público em ambos os dias de apresentação, mas estranhamente sentiu-se a ausência dos fazedores de teatro destas bandas, sentiu-se a ausência de reflexão tão interessante naquele tempo que procede o espectáculo, no tempo das conversas de átrio. Este espectáculo estava enquadrado na actividade Março - Mês do Teatro, que para além de ser uma simples agenda de espectáculos, deverá ser concerteza um espaço e um tempo de cruzamento de estéticas, de experiências, tão necessárias para o enriquecimento do nosso teatro. O Março - Mês de Teatro continua no próximo dia 23 com a apresentação da peça O Último Desejo, pelo grupo Cena Aberta, pelas 19h no Centro Cultural Português da Praia.

"O Doido e a Morte" - Depoimentos

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Ouça comentários de Bento Oliveira (cenógrafo), João Branco (encenador), Matilde Dias (jornalista cultural), Tambla (documentarista), Paulo Santos e Luis Miguel Morais (actores protagonistas da peça), sobre " O Doido e a Morte," após a apresentação em Mindelo.

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Bento Oliveira
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João Branco
:: Matilde Dias
:: Tambla
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Paulo Santos
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Luís Miguel Morais (Lulu)


Um agradecimento especial ao Gilson Silva e à Rádio Nova.

O Doido e a Morte: uma crítica

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@ «O Doido e a Morte» 2006 / foto de João Barbosa

Estará a paz e a boa vida do Governador prestes a acabar?
Esta é a história de um Governador Civil que finge trabalhar, enquanto se diverte criticando artigos dos jornais e escrevendo peças de teatro sem sucesso, recorrendo mesmo ao plágio, enquanto saboreia um bom café e aprecia um charuto caro.
Sua vida dá uma volta enorme quando recebe no seu gabinete a visita dum conhecido milionário da praça. O homem traz debaixo do braço nada mais nada menos que a morte vestida de bomba, dentro duma caixa de madeira. Accionado já o engenho, nada mais há a fazer, pois tudo irá pelos ares, não poupando ninguém num raio enorme de quilómetros.
Perante tal situação, não são só os personagens da trama que se encontram sob pressão. O próprio espectador sente aquele (como disse Leo Bassi) culo streto, ficando pregado à peça do início ao fim. Um desenvolvimento feliz que desagua num final mais ou menos surpreendente.
Essa é a 37ª produção (não comparem isso com nada no teatro mindelense) do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo/ICA que celebra agora mais um aniversário. E vale a pena dizer que é mais uma produção bastante criativa e de óptima qualidade, tal como as 36 anteriores. Uma carreira que serve de exemplo para qualquer grupo de teatro de São Vicente.
Desta vez o grupo criou um espaço alternativo para o espectáculo – o pátio do Centro Cultural do Mindelo – não perdendo contudo um sempre activo e interessado público. Uma peça com uma composição plástica simples mas concisa que, com certeza, conseguiu seus objectivos. Os figurinos estão à medida das personagens e do desenho de luz que implementa um ambiente mais sinistro à trama, principalmente nas cenas dominadas pelo milionário louco (o doido), inteligentemente interpretado por Paulo Santos. A banda sonora da peça, em que alguns trechos/sons foram produzidos e montados por elementos do grupo, também encaixa perfeitamente e não cria tédio nem enjoa. Num tema que sempre será actual, os actores encantam, utilizando uma colocação de voz perfeita, acompanhando uma expressão corporal soberba. Mas o mais lindo da peça é a utilização de meias-máscaras que traçam perfeitamente o perfil de cada personagem.
Mesmo que a peça tenha tido sucesso no espaço alternativo, penso que é perfeitamente adaptável para o palco do auditório do CCM. Espero ver esta peça, mais uma vez no referido auditório com um vasto público. Uma experiência que não significa que o espaço seja melhor ou pior aliás, o sucesso da peça no pátio do CCM fala por si.
Neu Lopes (sarron.com)

Peça "Mar Alto" referenciada

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@ "Mar Alto", 2005. Foto de João Barbosa

A peça "Mar Alto", 35ª Produção Teatral do GTCCPM - ICA, foi alvo de uma referência pelo site www.lantuna.blogspot.com a propósito do período eleitoral que vivemos...

Leia e saiba que brevemente, colocaremos também os dados referentes a esta peça.

Nesta época de luta pela preferência do eleitor, Lantuna recomenda um segundo olhar sobre a peça Mar Alto, do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, estreada em Março de 2005. Uma metáfora da antropofagia politica e uma critica a um sistema de bipolarização política, em que dois partidos são cúmplices em manter, retendo um pluripartidarismo formal. É pena que a peça não seja reposta nos dias que correm, mas fica aqui uma pista para reflexão...

"Esta peça é pois, acima de tudo, uma metáfora poderosa de sistemas políticos e sociais, onde cada vez mais a luta política se radicaliza, e onde não há espaço para uma intervenção pública que não seja de imediato conotada com um dos principais partidos políticos. Se tomamos determinadas posições, somos amarelos; se, pelo contrário, assumimos uma atitude antagónica relativa ao mesmo assunto, somos verdes. No país do mar, há cada vez menos espaço para o azul. (…)

Esta é, pois, uma das peças mais políticas que encenamos até hoje, numa época em que se discute muito sobre o papel do teatro enquanto instrumento de crítica e transformação social. Tal como na vida real, também na peça o elo quebra pelo lado mais fraco, e é comido, aqui no sentido literal do termo, pelos dominantes sociais.Neste contexto, que lugar cabe hoje aos marginalizados, às minorias, aos excêntricos e aos desalinhados? Que lugar cabe à arte e aos artistas, neste sistema cada dia mais antropofágico?"

João Branco

Crítica: Romeu e Julieta

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Crítica da peça «Romeu e Julieta" publicada no Jornal de Notícias (Portugal)

“A peça do grupo mindelense, que revela talento, dedicação e capacidades inesperadas numa cidade sem tradições teatrais dignas de especial referência, reuslta extremamente sedutora e conheceu um grande êxito nos palcos de Cabo Verde onde foi apresentada, apesar da economia de meios em que o grupo desenvolve a sua actividade. Tem soluções e recursos de efeito muito bem conseguidos – a utilização do espaço, o ritmo conferido ao espectáculo, o domínio da expressão corporal em momentos importantes e o resultado conseguido com a selecção musical, nomeadamente -, a que a ironia e o modo de sentir locais também conferem particular realce. A peça é apresentada como uma ‘adaptação crioula’ do texto de Shakespeare, o que no espectáculo não se resume ao uso do crioulo (aliás perfeitamente entendível), a par do português, mas significa sobretudo uma actualização de um tema que não conhece fronteiras temporais e, por outro lado, a sua ‘localização’ num contexto próprio, que é o da cidade do Mindelo. Existe aí uma alegada e tradicional rivalidade entre os bairros de Ribeira Bote e Monte Sossego, e João Branco e a sua equipa introduziram esse facto como elemento lexical, digamos assim (podiam-se dar mais exemplos, como o ambiente da Praça Nova), de u mundo onde o espectador cabo-verdiano melhor se pode reconhecer, ainda que outros públicos apercebam igualmente do sentido e dos efeitos pretendidos. (...) Cabo Verde e a sua rica história cultural ajudam-nos a compreender que um grupo de teatro com seis anos possa surpreender-nos desta maneira e demonstre possuir uma idéia clara do que está a fazer.”
José Gomes Bandeira – Jornal de Notícias 09/05/99