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Manifesto Teatral

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Manifesto Teatral

Vamos entrar no mês de Março, que em Cabo Verde tem sido desde 1999, o “Mês do Teatro”, pelo facto de no dia 27 de Março ser Dia Mundial do Teatro, e de durante todo o mês a Associação Mindelact e grupos de teatro um pouco por todo o arquipélago promoverem actividades ligadas às artes cénicas, com destaque, naturalmente, para a apresentação de peças de teatro. Por me ter sido solicitado que abordasse esta temática decidi, depois de participar em mais de 50 peças enquanto encenador, actor, cenógrafo ou dramaturgo, publicar o meu Manifesto Teatral. A forma como abordo a criação artística nesta área e a experiência adquirida ao longo de cerca de 20 anos de carreira permite-me que torne público este texto, mais do que uma manifestação de intenções, um espelho da forma como venho encarando a actividade profissional nesta área, parte vital da minha vida.

1. É fundamental que haja focos, pontos de partida para a criação, sons que permanentemente nos avisam e ajudam a não cair em soluções espontâneas que são rasteiras sempre presentes, porque muitas vezes a nossa mente tende a escolher, até pela forma como vem sendo moldada pela cultura da globalização, os caminhos mais fáceis. Este é um manifesto que se baseia em alguns conceitos fundamentais, a partir dos quais procuro nortear a criação no domínio das artes cénicas: Criatividade, Coerência, Concepção, Estudo, Exigência, Experimentação, Humildade, Trabalho e Partilha.

2. Nada acontece por acaso. No teatro, a arte da transparência, menos ainda. Para se conseguir um bom resultado é fundamental pesquisar, preparar, definir e fundamentalmente trabalhar. Trabalhar muito. Um espectáculo de teatro vive do momento, da sequência dos instantes, da procura da perfeição em cada segundo (que nunca é alcançada). A diferença entre um bom e um mau espectáculo de teatro está relacionada, na maior parte dos casos, com a maior ou menor atenção que damos aos pormenores. Peter Brook, o mais importante encenador do século XX, escreveu: “não há segredos”, e é verdade. O trabalho de um encenador é o mesmo do de um artesão, onde não há lugar para falsas mistificações nem para pretensos métodos mágicos. Não há teatro feito por geração espontânea. Fazer bom teatro dá muito trabalho. Exige enormes sacrifícios. Pede tempo e disponibilidade. [Trabalho]

3. O maior perigo do sucesso e da aceitação do público, e isso é claro em quase todas as áreas, é a acomodação. Como se descobríssemos uma fórmula, que repetimos até à exaustão, até porque se já resultou uma vez, vai certamente resultar noutras. Nada mais errado. A acomodação leva ao desleixo, o desleixo ao facilitismo e se há algo que aprendi neste ofício é que o público não é estúpido, antes pelo contrário. Hoje, exige-se ao processo de criação uma velocidade que corresponda às exigências da modernidade e essa é a sua maior armadilha. O tempo passou a ser um luxo. A reflexão um bem de terceira necessidade. Daí a urgência de exigirmos de nós próprios cada vez mais e não nos deixarmos cair nas tentações do mercantilismo e do aplauso fácil. Tenhamos, pois, como meta primeira fazer melhor que a produção anterior. É um excelente princípio. [Exigência]

4. No teatro tudo é possível porque parte de uma matriz fantástica (e de certa forma angustiante) para o processo de criação: o espaço vazio. Para preencher este espaço vazio devemos utilizar a criatividade de forma a que possamos conceber uma peça onde seja possível estar sempre um passo à frente de quem o vê. Quero com isto dizer que a previsibilidade é o veneno mortal da arte cénica. Porque provoca o desinteresse, o tédio e com este o maior de todos os sintomas, os ruídos oriundos da plateia, paladinos do aborrecimento: tosse, papeis, telemóveis a tocar. E esta abordagem de que tudo é possível é também ela uma armadilha, porque denota uma possibilidade de anarquia absoluta. Não caiamos nisso, porque como se disse no ponto anterior, o rigor e a disciplina têm que estar sempre presentes e com estes a capacidade de surpreender, sempre e a qualquer momento. Que nome se dá a essa competência? Criatividade, simplesmente. [Criatividade]

5. Entre a necessidade de reflexão, de trabalho, de disciplina e a liberdade inerente ao “tudo é possível”, ao espaço vazio e ao acto de criação em si, há um campo vasto de possibilidades a experimentar. “Por isso não há receitas prontas. Permanecer muito tempo na profundidade pode tornar-se aborrecido. Permanecer muito tempo no superficial logo se torna banal. Permanecer muito tempo nas alturas pode ser intolerável. Temos que estar em movimento o tempo todo.” Este parágrafo da autoria de Brook define bem aquela que é uma das características mais genuínas da arte teatral: a experimentação. Agora que já passamos da época em que se chamava experimental a tudo e mais alguma coisa sem a mínima noção do que esse termo realmente significava, talvez lhe possamos dar o devido valor. Tentar ser melhor passa também por descobrir novos caminhos, novas estéticas, novas temáticas, novas abordagens, novas técnicas. [Experimentação]

6. Para que o teatro viva e conserve a sua frescura, deve constantemente arriscar-se, confrontar-se, aventurar-se em novos mundos e é por isso que experimentar é nesta arte tão vital como respirar. Diria mesmo que a experimentação é o reflexo respiratório da arte cénica, o que faz com que esta se renova permanentemente e combata aqueles que são os seus grandes inimigos: o tédio, o aborrecimento, a repetição de fórmulas gastas, a manutenção de um estado senil incompatível com o ser e fazer arte. Mas experimentar não é lançar a concepção criadora para um abismo sem retorno. Pressupõe um domínio de determinadas técnicas, um estudo prévio, uma preocupação em conhecer os antecedentes das linguagens que se pretendem explorar. Experimentar implica também conhecer, ir mais além, procurar profundidade numa época em que a ligeireza domina quase todos os parâmetros da nossa vida social e cultural contemporânea. [Estudo]

7. O teatro é um espelho multifacetado das diferentes realidades que o rodeiam, mas não é certamente espelho de si próprio. Uma peça de teatro é concebida para que alguém a veja. Sendo assim, vai ser sujeita a um escrutínio que não nos deve fazer reféns mas também não nos pode deixar completamente indiferentes senão algo deixa de fazer sentido. E sabendo que o público vai para o teatro para se emocionar, para fazer parte de uma aventura comum, isso obriga a uma contínua introspecção e escuta atenta da parte de quem faz. Auscultar os outros, talvez seja este o acto que melhor define a humildade artística, considerada aqui como uma espécie de grilo falante que nos avisa, em momentos precisos, que se calhar não somos assim tão geniais e que não nos devemos levar tão a sério. O facto de o teatro ser a arte da partilha por excelência faz com que quem nele esteja envolvido se obrigue a questionar. Não tenhamos, pois, a pretensão de que aquilo que fazemos é automaticamente interessante, nem reclamar que os outros é que são ignorantes quando não alcançamos o pretendido. É importante saber escutar os silêncios, as opiniões, as criticas, os elogios, os abandonos, os abraços. Assimilar e seguir em frente. [Humildade]

8. No teatro cabe (quase) tudo. A arte de representar, a arquitectura, as artes plásticas, a música, a moda, a óptica, o som, a luz, os cheiros. Daí também o perigo de se tornar uma amalgama sem sentido. Parece-me fundamental que num campo tão vasto como este haja a preocupação de saber combinar todos estes elementos de forma coerente. Saber jogar com os materiais, com as cores, com os tecidos, com os sons, com os registos dos actores e fazer do todo uma obra de arte que tenha, no mínimo, qualidade estética e clareza conceptual. Por isso o teatro é a arte dos detalhes. Isso obriga a uma atenção redobrada sobre todos os aspectos envolvidos e a uma capacidade de encarar a montagem de uma peça de teatro como um processo colectivo, com muitos criadores envolvidos. Para que funcione, é importante que todos caminhem num sentido definido, claro, concreto, resultado de um profundo debate e questionamento, é certo, mas cujo resultado final nos faça estar perante um quadro harmónico, pictórico, energético e humano coerente consigo próprio. [Coerência]

9. Finalmente dizer que se a partilha é o que faz do teatro aquilo que ele é, torna-se claro que “a base do ofício teatral consiste em estabelecer com o público, a partir de elementos muito concretos, uma relação que funcione”, como escreveu Brook. Isto não implica que se tenha que fazer concepções, como tantas vezes se quer fazer querer. Mas tem que haver respeito. O público reconhece, antes de tudo, a qualidade. E premeia-a, sem contemplações. Claro que há plateias mais difíceis e outras mais dóceis, mas nem as primeiras tem que ser encaradas como inimigas nem as segundas como condescendentes. O ideal é conseguir uma plateia que goste realmente de teatro. Essa é uma bênção, porque resulta numa troca energética entre um grupo de pessoas que vive uma convenção – a convenção teatral - num mesmo comprimento de onda. Por isso o confronto da obra cénica com o seu receptor final é o culminar de um longo, doloroso, paciente e complexo processo criativo, cujo resultado é sempre imprevisível mas quase sempre justo e reflexo do investimento pessoal e colectivo nele depositado. [Partilha]

10. Quanto ao resto, é como o próprio teatro, nasce e morre. Tudo é efémero. É importante que não nos levemos demasiado a sério e que este manifesto possa ser lido como um roteiro de uma viagem, num mundo que permite múltiplos itinerários a tantos outros destinos que não tem que adoptar nada do que aqui é defendido. É provável que eu próprio, daqui a alguns anos, leia este texto e que, como quem lê uma carta de amor que se escreveu na adolescência, sorria e, envergonhado, o arrume sem contemplações no baú das memórias mais longínquas.


João Branco
Mindelo, Março de 2009

Vem aí: A Última Ceia

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ESTREIA DIA 14 DE MARÇO
Ficha Artística

Adaptação do romance
«Apocalipse Nau»

de Rui Zink

Adaptação, Encenação, Cenografia
e Direcção Artística

João Branco

As. de Encenação e Desenho de Luz
Edson Fortes

Figurinos e Adereços
Elisabete Gonçalves

Peças Cenográficas
Manuel Estevão

Interpretação
Arlindo Rocha
Elisabete Gonçalves
Elísio Leite
João Branco
Manuel Estêvão
Sílvia Lima

Som
Anselmo Fortes


40ª Produção Teatral do GTCCPM/IC


SOBRE A PEÇA

A Era da Pertofobia

Esta peça é um objecto estranho. Que se entranha. Pode ser vista como uma comédia, um drama, uma tragédia, ou apenas uma história onde cabem todos estes géneros que costumamos utilizar para classificar as obras teatrais. E é lógico que assim seja, porque esta peça fala da vida, de seres humanos banais, iguais a tantos outros no mundo. E a vida é, por definição, o reino onde cabem todos os epítetos. Um mistério onde, num segundo, tudo se pode esfumar numa memória, num grito, num perfume imaginário.

A situação é bastante simples: estamos no último dia do milénio: três homens e duas mulheres apostam tudo. As probabilidades não são muitas. Porque o mundo vai acabar ao bater da meia-noite. É o próprio Diabo quem o diz. E o Diabo, como se sabe, nunca mente. Esta é pois uma história negra que retrata uma noite de passagem de ano de uma família de classe média em ruptura, na viragem do milénio, que pretende fazer-nos pensar e, se sobrar vontade para isso, sorrir. E ninguém nos garante que este não seja amarelo. O pior dos sorrisos.

Este é um sinal dos tempos actuais. As pessoas comunicam utilizando os meios mais sofisticados, o telemóvel e a Internet são consideradas as invenções mais importantes da modernidade e talvez seja por isso que é cada vez mais difícil comunicar com os outros sem a imposição de uma distância. Como diz o autor, as pessoas hoje estão cada vez mais pertofóbicas. Tem medo da proximidade, do toque sentido, do olhar trocado ou da palavra ouvida.

Muitas pessoas parecem ter desistido de parar para pensar no que podem fazer para simplesmente serem um pouco mais felizes, tornando os que estão à sua volta também um pouco mais felizes. Que este sopro que é a nossa passagem pelo mundo dos vivos deveria ser algo muito mais fruído, mais valorizado, mais simplificado. Volta e meia fica cada vez mais claro que o homem é um animal simbólico que escolheu viver no inferno e a vida não é mais do que uma sucessão de fins. E, à beira da viragem de milénio, como à beira de um abismo sem retorno, a nossa percepção de catástrofe aumenta, enquanto a temperatura do inferno continua a mesma, tépida, como sempre foi.

E é isto que queremos dizer: que é preciso reagir para que o homem não perca a sua própria Humanidade; que é premente que se volte a encontrar a imensa poesia que é o simples facto de se estar vivo em cada acordar; que é necessário voltar a olhar, vendo os que nos rodeiam e amam, sem restrições. A esperança, essa, mantém-se sempre, porque como diz o povo, é a última a morrer.

E o que continua vivo é esta nossa vontade de arriscar, enquanto criadores, homens e mulheres do teatro, para dizer e transmitir não mensagens, até porque cada um tem o seu próprio código para ver e analisar as coisas, mas sim estados d’alma, alertas cobertos de expectativa de que este é um tempo e um lugar onde vale a pena estar. De uma forma urgente e arrebatadora.

João Branco

A Caderneta: sobre a encenação

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SOBRE A ENCENAÇÃO

Obriga a justiça mais elementar que se diga que este projecto teatral é, antes de mais, uma aposta pessoal de uma actriz. Versátil, talentosa e com larga experiência no meio teatral, Mirita Verssimo tem com este texto de Baltasar Lopes um relacionamento antigo e apaixonado. Daí que esta segunda montagem a que se propõem – a primeira acontecera em 2000, no âmbito do Festival Mindelact – funciona como uma espécie de re-visitação, guiada por uma direcção cénica que modifica em alguns pontos a apresentação original. É o caso da música, nesta versão com uma presença muito forte, graças à direcção musical e execução do jovem Nuno Tavares no violão e ao relacionamento da actriz com o público, agora talvez mais directo e emocionado. Nesta versão, o «senhor doutor» para quem a protagonista fala, somos todos nós, como se através deste ouvinte que nunca aparece, ela pudesse, finalmente, falar para o mundo.

João Branco

Contagem decrescente

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«Decidir entre cá e lá, é como escolher entre dois filhos, entre dois futuros, duas vidas. Não se pode fazê-lo sem sangrar o coração do crioulo. Para o estancar e não soçobrar, resta-nos alimentar essa esperança de que fizemos a escolha certa, de que um dia o futuro será risonho e nos permitirá visitar o baú das memórias abandonadas.»


João Branco / Programa da peça


Ilha Ancorada
Estreia dia 30 de Junho de 2006

Historial: "Os Dois Irmãos" (1999)

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Esta produção teatral marcou, por várias razões. Entre as mais significativas estão o facto de dramatizar um dos mais geniais romances de Germano Almeida, de ter colocado um grupo de teatro mindelense a contar uma história de Santiago, sem precisar de recurso folclorista para se mostrar "genuíno" e porque foi para este espectáculo que Orlando Pantera compôs temas originais...


Um desafio Fascinante
Texto inserido no programa da peça «Os Dois Irmãos»

Estes dois irmãos andam-me a perseguir há já algum tempo, André e João, irmãos de sangue de uma qualquer rubêra do interior de Santiago, povoam o meu imaginário dede o dia em que li o romance de Germano Almeida. Um projecto que foi sendo sucessivamente adiado, substituído por outros, não pela sua menor importância, mas antes pela enorme responsabilidade que para nós representava pôr no palco um romance do mais popular e mediático escritor cabo-verdiano. Depois, o romance escolhido, “Os Dois Irmãos”, apresenta uma dramaticidade tal, que nos admiramos não só pela beleza do livro – mas sobre isso escreverá melhor do eu a Ana Cordeiro – mas sobretudo por este ainda não ter sido adaptado ao cinema, à televisão ou, até agora, ao teatro. Se o ponto de partida fundamental para qualquer projecto audiovisual é uma boa história, então este romance é matéria-prima de finíssima qualidade. Aliás, desta mina de talento que é o Germano Almeida, haverá com certeza muitos outros filões por explorar, que proporcionarão no futuro mais filmes, séries de televisão ou peças de teatro, embora seja uma pena que o escritor nos «obrigue» a queimar muitos e indispensáveis neurónios nas adaptações, já que, como ele próprio já nos repetiu, dificilmente se aventurará por esse campo tão complexo que é, sem dúvida, o da dramaturgia, para grande lamento nosso. Até porque nos facilitava o trabalho.

Mas desta vez é que foi. Partimos para a adaptação, eu e o Francisco Cruz, ficando muitas vezes com os olhos em bico com a complexidade da estrutura narrativa do autor, que salta no tempo, de uma linha para a outra, com que imune a qualquer tipo de regra naturalmente aceite para uma forma de escrita mais rígida (e ainda bem que assim é!).

Alguns meses de trabalho foi quanto durou a adaptação, partindo de um pressuposto de encenação que sempre foi para nós bastante claro: a peça deveria retratar o julgamento de André, efectuado na escola primária do local onde o crime teve lugar. A partir daí, foi para nós interessante, e esperamos que o seja para o nosso público, escolher as situações que no local foram determinantes para a ocorrência do horrendo e inexplicável crime. Porque num aspecto o livro – escrito a partir de uma história verídica, diga-se de passagem – é claro: André, então emigrado em Lisboa, não regressou a casa para consumar nenhum tipo de vingança contra o irmão. Nem ficou claro se o que o pai viu, e que originou a carta escrita ao filho emigrado contando a suposta traição do irmão, realmente aconteceu. O mais dramático de toda a situação é o facto de, provavelmente, a traição de João – uma alegada relação sexual com a mulher com quem André casara apressadamente antes de partir para o estrangeiro – nunca ter realmente acontecido e tudo não ter sido senão o resultado da imaginação delirante de um homem já idoso, muito agarrado aos conceitos da honra e tradição familiar. Dar a perceber, e colocar isso no palco, toda a carga negativa que se gerou na aldeia pelo facto de André não consumar a vingança contra o irmão logo após a sua chegada, e descrever o desenvolvimento que acabou por consumar o que todos esperavam que acontecesse desde a primeira hora, eis o grande desafio do nosso grupo, porque só criando esse ambiente se conseguiria captar a verdadeira essência da obra.

Tivemos várias vezes que conversar com o escritor para saber mais pormenores sobre o julgamento. Assistimos a vários julgamentos actuais, para perceber como decorrem normalmente os processos judiciais e o funcionamento de um tribunal. Estudamos, com todo o cuidado, o envolvimento geográfico da história, ou seja, o interior de Santiago, com a preocupação de sermos fiéis ao crioulo local, aos costumes e aos figurinos, numa história acontecida pouco depois da independência nacional. Foi para nós de enorme importância a colaboração de muitas pessoas de Santiago, com quem tivemos a preocupação de estar em contacto, de levar para os ensaios, não só para uma questão de controle da língua, mas também para sentir se o caminho escolhido para captar o espírito dessa região, naquela época, estava a ser correctamente delineado.

Podemos afirmar, e temos consciência disso, que não deixa de ser uma grande ousadia, um grupo de sampadjudos concretizarem um espectáculo feito a partir de uma obra literária que retrata de uma forma tão brilhante a cultura e a vivência de uma comunidade do interior da ilha de Santiago, tão rica, e ao mesmo tempo, tão misteriosa. Foi para nós um desafio que foi sendo superado dia a dia, nos ensaios, até porque a qualidade literária do guião dramatúrgico, quase na totalidade saído das páginas do romance adaptado, nos aumentava o prazer de concretizar este trabalho cénico. Esperamos, sinceramente, que este prazer seja compartilhado por todos quantos vejam este espectáculo.

O cenário, concebido pelo artista Manuel Dias, baseia-se na concepção de que estamos num tribunal adaptado, dentro de uma sala de aula de uma escola primária. Os flash-back’s que a toda a hora nos levam a viajar até ao cerne dos acontecimentos, foi concebido de forma a dar uma outra dimensão estética e temporal, para que mais facilmente possamos ser transportados para o interior daquela aldeia. O público, durante todas as cenas do julgamento, faz parte do cenário. São a audiência do tribunal, e como tal são levados a agir, inclusive com o pedido de se levantarem para a entrada do juiz. Todos esperamos que durante o normal desenrolar de todo o processo judicial não haja a necessidade de solicitar a intervenção das forças policiais para que o respeito ao tribunal não seja nunca posto em causa. O público é assim convidado a participar nesse jogo do fazer teatral, que a todos dá prazer, já que sem ele, não se justifica a presença de nenhum dos elementos integrantes desta forma de expressão artística.

O músico Orlando Pantera, profundo conhecedor da cultura daquela região do país, é um trunfo importante, que com grande orgulho integramos na ficha artística. Ao convite, de imediato pôs mãos à obra, não só concebendo temas inéditos, como gravando, em exclusivo, outros temas já compostos e da sua autoria, que se adaptassem às diversas peripécias da estrutura narrativa. O talento de Orlando Pantera fica patente em cada um dos sons deste espectáculo e dá a esta produção uma cor que, na nossa opinião, em muito contribui para um mais fiel retrato social e regional da história.

Finalmente, falar dos actores, principais obreiros desta produção. Foram exemplares na forma como procuraram assimilar uma realidade cultural e social que não é de forma alguma a deles, da qual muitas vezes se sentiam afastados, devido a alguns discursos demasiado bairristas, que infelizmente ainda hoje são uma realidade no nosso país e que servem só para afastar umas das outras as diferentes vertentes culturais do povo cabo-verdiano. Com o talento demonstrado por estes actores ao longo dos ensaios é para o encenador um privilégio trabalhar. O esforço, a dedicação e talento mais uma vez demonstrados, é como que uma imagem deste grupo de teatro, que comemora com esta fascinante história, as suas 20 produções teatrais, em seis anos de existência, facto mais do que qualquer outro, valerá para uma avaliação do que toda esta boa gente tem feito e contribuído para uma verdadeira e sustentada evolução das artes cénicas em Cabo Verde.

Março 99 / João Branco

Os Dois Irmãos

Ficha Técnica

Encenação
João Branco

Adaptação Dramatúrgica
Francisco Cruz

Cenografia
Manuel Dias

Música Original
Orlando Pantera

Figurinos
Anilda Rafael

Desenho de luzes
César Fortes

Sonoplastia
Anselmo Fortes

Aderecista
Helder Antunes

Assistente de ensaios
Elísio Leite

Actores / Actrizes
José Évora – André
Jorge Ramos – João
Francisco Cruz – pai
Gabriela Graça - mãe
Ângelo Gonçalves - Juiz
Flávio Leite - Agente do Ministério Público
Manuel Estevão - Advogado de defesa
Nelson Rocha - Oficial de diligências
Manuel Dias – Domenico
Elísio Leite – Furtado
Arlindo Rocha – Pedro Miguel
Carla Sequeira – Maria Joana e batucadeira
Zenaida Alfama – Vizinha
Edson Gomes – João o Tanso
António Coelho – pai de Maria Joana
Odair Lima – polícia
Elisabete Gonçalves – batucadeira

Apresentação
Dias 26, 27 e 28 de Março e 2, 3 e 4 de Abril de 1999, no Centro Cultural do Mindelo

À Espera da Chuva

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Corria o ano 2002, e o nosso grupo lança-se numa enorme aventura. Com a peça "À Espera da Chuva" não só se evocou o grande dramaturgo Samuel Beckett, como se colocou em palco dois actores - Ducha Faria e Jorge Santos - a falar dois crioulos "rurais" e totalmente distintos: o crioulo de Santiago e o de Santão Antão. Vamos recordar.


Sobre a peça

A inevitabilidade mítica da espera
(Texto inserido no programa da peça «À Espera da Chuva»)

Eis um projecto teatral várias vezes adiado que vê finalmente a luz do dia. Numa peça que fala essencialmente da espera, foi precisamente isso que fizemos: esperar que chegasse o momento certo para dar vida a este magnífico texto dramatúrgico. Desde que tomamos conhecimento de uma peça de Beckett chamada “À Espera de Godot”, que era muito forte o desejo de concretizar uma adaptação crioula desse texto, um dos mais marcantes da dramaturgia contemporânea.

A imagem de duas pessoas num campo deserto, praticamente no meio do nada, à espera de algo ou alguém, sempre foi ligada a essa inevitabilidade que acompanha o mundo rural cabo-verdiano desde os tempos mais remotos, de semear e esperar por uma dávida do céu. A primeira versão da adaptação agora apresentada foi feita em plena viagem de avião Sal – Lisboa, já lá vão alguns anos e nunca esse percurso foi concretizado de forma tão prazenteira. Estava lá tudo, nas palavras geniais do dramaturgo. Quando se pensa na imagem de dois cabo-verdianos à espera de alguma coisa, é inevitavelmente, da chuva que nos lembramos. Entre uma peça e outra, este texto foi sendo guardado na gaveta, mas de vez em quando era ele que era transportado para a mesa do café, sempre com uma vontade crescente de dar vida a esses personagens de ninguém, retidos no meio do nada, simplesmente à espera. Entre esses vários prelúdios, um dia saiu na manchete de um dos semanários nacionais uma fotografia com três agricultores, de enxada na mão, olhando para o céu, sob o título: “À Espera da Azágua”. Foi o momento em que se tornou ainda mais premente e oportuna a decisão de levar a cabo esta encenação, num espectáculo que será tudo menos fácil e corriqueiro, que não terá o cunho popular e cómico de outros registros, mas que procura ir mais fundo da condição humana, de uma forma geral, e da cabo-verdianidade, em particular. Essa é também a magia dos textos universais, já o temos dito aquando de outras adaptações: a universalidade permite-nos reclamar o nosso pedaço, a nossa condição de possuidores de palavras escritas por criadores inatos em momentos de rara inspiração.

Esta montagem teve várias particularidades que gostaríamos de partilhar: em primeiro lugar o trabalho dos actores. Já se tinha referido em outras ocasiões que um dos problemas inerentes às grandes produções teatrais, envolvendo elencos numerosos e heterogéneos, é tornar o trabalho do actor menos visível, mais diluído no colectivo, o que não permite nem ao encenador nem ao actor que com ele trabalha uma abordagem mais profunda dos seus personagens. Nesses casos, o sucessivo desenrolar dos acontecimentos, a corrente imparável dos factos, ganham primazia sobre a caracterização psicológica dos personagens. Aqui não há nada disso, porque estamos perante um estranho enredo em que nada acontece. Duas pessoas, que vivem juntas à um tempo interminável, estão algures, num lugar deserto e devorado pela seca, à espera, simplesmente. Mais nada. Além disso, é o vazio. Resta-nos aqueles dois seres humanos, colocados perante uma situação considerada absurda, mas que tem ligações concretas com a nossa realidade de todos os dias, principalmente se pensarmos no mundo rural. Nesta ordem de idéias, o trabalho dos actores, é um trabalho sem rede, sem defesas, muito mais dificultado, porque são eles o cerne e o centro de uma estória onde, aparentemente, nada se passa. E o Jorge e a Ducha, que aceitaram com muita coragem abraçar este projecto responderam à altura, com dedicação, empenho e talento.

Em seguida, temos a questão linguística, que será um dos pontos mais polémicos e marcantes desta produção. Inicialmente, haveria duas hipóteses: o português ou o crioulo de S. Vicente. Acabamos por optar por uma terceira via que nos pareceu bem mais ajustada ao contexto que queríamos dar a esta peça, mas que nos colocou perante um desafio incomensurável: o homem fala crioulo de Santiago, a mulher responde com o crioulo de Santo Antão. Houve todo um imenso trabalho de investigação, de tradução, de dicção, de pronúncias e nuances dos diferentes crioulos que tivemos que abraçar, com auxílio de naturais dessas duas ilhas. E dessa forma, na nossa opinião, a peça ganha uma outra dimensão: em primeiro lugar porque fixa o contexto dos personagens num universo marcadamente rural, em segundo, porque dá uma maior amplitude ao drama nacional, que se repete todos os anos, materializado no facto de muitos e muitos camponeses cabo-verdianos, com enorme esforço, se dedicarem a uma sementeira, cujo resultado depende dos caprichos de uma natureza, que na maioria dos casos, se tem revelado madrasta.

Tudo o resto se deve a uma colaboração solidária e criativa de toda a equipa: a música tocada ao vivo por dois jovens e talentosos executantes, o guarda-roupa concebido e desenhado especialmente para o espectáculo, uma linha plástica centrada nas diferentes côres de uma terra pouco acostumada em sentir o doce e fresco sabor da água, os castanhos, o deserto, e como não podia deixar de ser, num canto, uma árvore que resiste, e que em Cabo Verde não poderia ser outra que não uma acácia.
Foi a pensar nessa boa gente do campo que concretizamos esta peça. E aprendemos que a difícil capacidade de esperar, de manter a esperança em dias melhores, é também e sobretudo, sinónimo de sabedoria.

João Branco – Março 2002

À Espera da Chuva

Ficha Artística

Encenação, adaptação dramatúrgica e cenografia
João Branco
Direcção Musical e Músicas originais
Vamar Martins
Desenho de Luzes
Anselmo Fortes
Som
Fonseca Soares
Figurinos e adereços
Elisabete Gonçalves

Consultores de crioulo (Santo Antão e Santiago)
Arlindo Lopes, Adilson Semedo, Arminda Lima e Marlene Pires

Interpretação
Jorge Spencer e Maria da Luz Faria

Músicos Convidados
Dani Monteiro / “Toja” (clarinete)
Vamar Martins (viola)

Apresentação
Dia 29, 30 e 31 de Março de 2002, no Centro Cultural do Mindelo
- Participação no Março – Mês do Teatro 2002
Dia 05 de Abril de 2002, no Auditório Nacional, cidade da Praia
- II Congresso de Quadros da Diáspora

Nho Rei Já Bá Cabéça

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Em 2003, o nosso grupo, em co-produção com o Atelier Teatrakácia, avança para a segunda crioulização de uma peça de Shakespeare. Desta vez a escolha recaiu para uma das suas mais famosas tragédias, "Rei Lear". Estreada no Festival Mindelact 2003, o resultado foi um enorme sucesso.

Rei Lear
Nho Rei Já Bá Cabeça


A Peça
O perfil psicológico do Rei Lear, a sua aposta na sucessão, ao querer dar o reino à filha que mais o amasse, dão sinal de megalomania, que é má conselheira em matéria política. A sageza na vida e na arte de governar, que se ganha com a experiência, abandona o Rei Lear, deixa-o à mercê das paixões, da vaidade pessoal, levando à tragédia, cuja magnitude se impõem em toda a complexidade das cenas que constituem a narrativa do drama. A questão do poder e a sua representação nas tábuas de um palco continuam a ter uma importância excepcional no que toca ao seu aspecto dramático. O teatro de Shakespeare, mais do que para ser lido, é para ser visto e ouvido, e o texto tem, por isso, de sugerir uma dimensão visual do espectador. E esta parábola da arte de reinar e dos afectos, que condicionam ou perturbam a escolha do governante, tem raízes profundas na cultura e no imaginário popular. Rei Lear é um dos mais conhecidos e populares dramas históricos do maior dramaturgo de todos os tempos, e esta é a segunda vez, depois da apresentação de “Romeu e Julieta” (1998) que textos de Shakespeare são apresentados em crioulo.

Dois Grupos de Teatro, Um Encontro de Gerações
Nesta co-produção, pode-se dizê-lo, juntam-se duas gerações de grupos de teatro. Por um lado, o Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, o mais internacional dos grupos de teatro em Cabo Verde, e que no auge das comemorações do seu 10º aniversário, aposta pela segunda vez numa adaptação de uma peça de W. Shakespeare, depois do estrondoso sucesso que foi a adaptação, em 1998, de “Romeu e Julieta”. Por outro lado, o Atelier Teatrakácia, grupo oriundo precisamente da escola de formação teatral do Centro Cultural Português, e que, com um ano de vida, tem contribuído para a manutenção da enorme vitalidade do teatro na ilha de S. Vicente.



Ficha Artística

Autor
William Shakespeare
Adaptação
Fonseca Soares e João Branco
Tradução para o crioulo
Coordenação: Fonseca Soares
Direcção Artística, encenação e cenografia
João Branco

Desenho de Luzes
César Fortes e João Branco
Operação de Luz
Edson Fortes
Figurinos
Elisabete Gonçalves
Execução dos Figurinos
Sissi Tiene
Direcção de Cena
Hélder Antunes
Concepção do Trono
Manú Cabral

Interpretação
Do elenco do Grupo de Teatro do CCP Mindelo

Anselmo Fortes
Arlindo Rocha
Ludmila Évora
Nelson Rocha
Romilda Silva

Do Atelier Teatrakácia
Fonseca Soares
Helena Rodrigues
José Rui Martins
Nuno Delgado

Recordando Nha Bernarda

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Em 1997, estreia uma peça que foi até hoje um dos maiores êxitos de público de todo o nosso historial. "A Casa de Nha Bernarda", criolização da peça de Garcia Lorca, foi apresentada durante seis dias, sempre com lotação esgotada e só não foi mais porque a actriz convidada, Guida Maria, teve que regressar ao seu país.

Recordemos aqui quem fez parte desse memorável projecto teatral.

A Casa de Nha Bernarda

Ficha Artística
Encenação
João Branco
Adaptação Dramatúrgica
Colectiva
(Coordenação na tradução para o crioulo: Maria da Luz Faria)
Cenografia
João Branco e Paulo Miranda
Figurinos
Anilda Rafael
Iluminação
César Fortes e Flávio Leite
Som
Anselmo Fortes

Actrizes
Maria da Luz Faria
Gabriela Graça
Elisabete Gonçalves
Benvinda Francês
Carla Sequeira
Cláudia Lima
Joana Évora
Anilda Rafael
Zenaida Alfama
Helga Melício
Telma Veríssimo
Dijemira Margarete

Guida Maria: Actriz convidada

Apresentação

Dias 14, 15, 16, 20, 21 e 22 de Novembro de 1997, no Centro Cultural do Mindelo

Não se Ouve Nada Além do Pranto
Texto inserido no programa da peça «A Casa de Nha Bernarda»


O momento mais difícil quando se encena um espectáculo de teatro é este: escrever um texto introdutório, geralmente incluso no programa do referido espectáculo – o que é o caso – para tentar descrever um pouco do que foi o acto criativo e cujo resultado final está a ser posto à disposição dos olhares críticos de quem assiste.

O Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo teve desta feita um desafio de grande risco, quer pelo autor em causa, quer pela peça escolhida (e segundo informações que nos foram fornecidas, já tinha sido posta em cena nos anos 60 no Mindelo, o que aumenta ainda mais a nossa responsabilidade). Encenar “A Casa de Bernarda Alba” no contexto que vem caracterizando o nosso trabalho, não foi tarefa fácil. Era necessária, do nosso ponto de vista, uma adaptação. O texto original sofreu duas traduções: uma do castelhano para o português, (já estava contemplada na obra a que tivemos acesso), e uma outra do português para o crioulo, no que concerne à maioria das personagens. Essa tradução não foi somente literária, mas a própria essência da peça, pesada, convencional, lenta e introspectiva, sofreu uma transformação no mínimo interessante. A tradução para o crioulo tornou o texto mais aberto, mais musical, mais próximo da realidade local, um pouco mais moderno. A ambiguidade, tal como na obra original, está presente, mas é nossa convicção que a tradução feita, num trabalho que procurámos fosse o mais rigoroso possível, deu ao ambiente geral da peça um toque de ironia típico da cidade do Mindelo e dos seus cidadãos. De um primitivo ambiente rural passamos para um ambiente urbano, numa época em que o Mindelo registrava grandes movimentações, ampliando o seu cunho de cidade cosmopolita.

Sendo o teatro uma arte em movimento não faria sentido, do nosso ponto de vista, encenar a “A Casa de Bernarda Alba” da mesma forma como esta foi feita nas inúmeras adaptações postas em cena em Portugal e no resto do mundo. O Teatro é assim mais uma vez veículo de transformação e a obra que agora é apresentada já não é a que nasceu do punho do dramaturgo, como não o são nenhuma das inúmeras adaptações referidas anteriormente. “A Casa de Nha Bernarda” não deixa de ser uma história que conta o luto imposto por uma mãe severa às suas filhas depois da morte do marido, com o preto, o pranto, a escuridão e a falta de perspectiva de vida sempre presente. “A Casa de Nha Bernarda” não deixa de ser uma sequência de jogos e meias verdades, de sofrimentos, de lutas, de suspiros, de ânsia pela presença masculina, sempre ausente mas sempre tão presente. Na peça, como no dia a dia de muitas mulheres cabo-verdianas, o homem não está presente, vagueia, dentro de si ou por esse mundo fora em busca de um futuro melhor para si e para os seus. A experiência da solidão feminina é, foi e será vivida por muitas mulheres crioulas. Na peça, como na actualidade, em qualquer parte do planeta, as convenções impostas pela sociedade, sobrepõem-se muitas vezes à felicidade das pessoas, e nesse campo são as mulheres que mais vezes experimentam o amargo sabor da indiferença e da hipocrisia social. Muitas delas, ainda hoje, só na morte encontram a libertação tão desejada, e essa é uma realidade universal e que faz da obra de Lorca um monumento da dramaturgia contemporânea.

Esta é uma peça que tem outra característica muito especial e que mais uma vez vem ao encontro daquilo que sempre temos defendido como um caminho profícuo e enriquecedor. O caminho da troca de experiências, do confronto de culturas, da fusão de estados de espírito, do conhecimento de diferentes métodos de trabalho. O projecto “A Casa de Nha Bernarda” está profundamente ligado à coragem e ao talento da actriz portuguesa Guida Maria, que não hesitou um momento para aceitar o nosso desafio de encarnar uma Bernarda do Mindelo. Não deve ter sido nada fácil para ela esta experiência mas de desafios fáceis está o mundo cheio e não vale a pena perdermos muito tempo com eles. A Guida Maria não o fez, agarrou-se a este projecto com a sua imensa força, aceitou sair do ambiente extremamente profissional e estruturado do Teatro Nacional D. Maria II, para vir ensaiar numa biblioteca, dirigida por um jovem encenador que ainda tem tudo para aprender, tornando este espectáculo mais rico, precisamente porque resulta de um intercâmbio cultural que deve continuar neste e noutros sentidos.

Devo dizer igualmente que foi para mim um enorme prazer trabalhar durante dois meses com este grupo magnífico de mulheres. Numa altura em que três das nossas mais conhecidas actrizes saem de Cabo Verde (duas delas para uma formação de onze meses na área do Teatro), é um enorme agrado confirmar que este “ninho” de actores e actrizes em que se está a transformar o Centro Cultural Português do Mindelo, vai dar a conhecer ao público mais uma série de caras novas, de todas as idades, todas mulheres, com um amor insuperável pelas artes cénicas e uma vontade enorme de continuar a trabalhar para o melhoramento do nosso teatro. Donas de casa, operárias, reformadas ou estudantes, foi com uma enorme coragem e muito talento que conseguiram tornar realidade este sonho de produzir uma versão crioula de “A Casa de Bernarda Alba”, uma peça onde o que marca na alma de quem construiu este espectáculo é o pranto doce e triste das mulheres abandonadas.

Novembro 97 / João Branco

"O Doido e a Morte" em estreia

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Ao iniciar a pesquisa para escrever o presente texto, descobri algo de surpreendente: o autor desta peça nasceu e morreu precisamente no mesmo ano do grande poeta e escritor cabo-verdiano Eugénio Tavares, homenageado pelo nosso grupo de teatro há precisamente um ano. Não passa de uma coincidência, mas fiquei radiante com a descoberta, vá-se lá saber porquê!

Quando li a peça pela primeira vez, fiquei muito interessado. E o entusiasmo foi crescendo com os ensaios, porque dito pelos actores o texto é ainda mais imponente. É de uma qualidade imensa e ao mesmo tempo cruel, seco e implacável, perfeitamente adaptável aos tempos modernos, aliás como a própria situação criada comprova, dada a sua triste actualidade.

Basicamente, a situação é muito simples: dois personagens, um poderoso, porque é Governador, calmamente instalado no seu gabinete climatizado, o outro, que entra com uma bomba super potente, anunciando com a maior calma do mundo que passados alguns minutos, irá tudo pelos ares. Traz consigo, diz ele, a morte debaixo do braço.

A estreia desta peça em Portugal, fará no próximo dia 01 de Março oitenta anos exactos, foi marcada por deliciosas intrigas de bastidores, que visavam suprimir a última fala, a fim de «não ofender a decência dos ouvidos das senhoras». Com efeito, o pano chegou a cair antes do final mas, por exigência do intérprete, voltou a subir para que a réplica em causa pudesse então ser dita, conferindo, assim, mais impacto àquilo que, puritanamente, se queria censurar…

A peça foi classificada pelo teatrólogo Luiz Francisco Rebello como «a mais singular e genial obra dramática do século XX português». Este autor refere ainda que Raul Brandão sentia-se atraído pelo teatro e pelo «prestígio enorme» que, nas suas palavras, «quatro tábuas, dois ou três farrapos de lona a cheirarem a tinta exercem sobre todos os homens de imaginação». Estamos perante uma obra que deixa transparecer um sentimento do absurdo ligado ao grotesco gerado pela discrepância entre a realidade e o sonho, entre a grandeza e a abjecção, entre a morte que é a vida e o sonho da eternidade.

Considerada uma pérola da história da dramaturgia portuguesa – e em língua portuguesa - «O Doido e a Morte», é uma farsa existencial, onde talvez faça sentido falar de expressionismo, por se tratar da revolta de um indivíduo perante a crueldade, a incongruência, a abjecção do mundo moderno e porque a obra de Raul Brandão está cheia de «gritos» que fazem com que tenhamos sempre presente o quadro de Munsch, «O Grito».

A encenação inspira-se, precisamente, nesta ideia e neste paradigma. Daí a opção pela utilização das máscaras, o estilo de interpretação, os próprios adereços, figurinos, som e luz. Digamos que toda a plástica da peça, seja ela interpretativa, sonora ou visual, é o retrato de um imenso grito que pode servir, senão para acordar deste estranho sonho que é o presente, pelo menos para nos tornar mais alertas no futuro.

Finalmente, dedico este espectáculo aos actores, pelo esforço, dedicação e pelo enorme desafio que, com trabalho e talento, penso terem sabido ultrapassar.

João Branco

Historial: Condenados ao sucesso

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@ "O Último Dia de Um Condenado", 1997 - foto de Valdemar Lopes



O Último Dia de Um Condenado

Em 1997 o nosso grupo resolveu tentar responder a um desafio: pegar num texto de importância histórica de Victor Hugo - «O Último Dia de um Condenado» e fazer com ele uma peça actual para Cabo Verde. Quando foi apresentada na cidade da Praia, um espectador escreveria, espantado: «Foi uma agradável surpresa descobrir que em Cabo Verde há quem faça teatro de tão boa qualidade».

Para quem vê o sol
“nascer aos quadradinhos”.
Texto inserido no programa da peça «O Último Dia de Um Condenado»


Esta é acima de tudo, uma peça sobre homens que, justa ou injustamente, se viram privados da sua liberdade. Resolvemos por isso, juntar um texto poético e de elevada carga dramática, escrito num contexto histórico passado, estóreas de presidiários actuais, feitas depois de uma investigação realizada na penitenciária de S. Vicente. São duas realidades concretas que se confrontam e se misturam, dois contextos diferentes cujos valores se confundem, duas culturas, duas línguas, um mesmo drama: o presídio, a condenação, a privação da liberdade.

Para criar uma maior dinâmica no espectáculo, e para tornar o próprio texto de Victor Hugo mais atractivo para o público cabo-verdiano, criaram-se dois mundos distintos: um do final do séc. XVIII, com personagens que falam um português de elevada carga dramática e poética (oriundo do texto de Victor Hugo), e onde se relatam os últimos pensamentos de um condenado à morte cuja sentença se irá executar no final (através dessa terrível máquina da morte que foi a guilhotina, e que estará presente na cenografia), e onde está bem patente o gênio da escrita de Victor Hugo; um outro, actual, dos anos 90, onde contracenam prisioneiros cabo-verdianos, com suas histórias do quotidiano (escritas a partir de uma série de entrevistas que foram feitas a vários prisioneiros e ex-prisioneiros de delito comum da Cadeia Civil de S. Vicente) e cujo texto é dito em crioulo. São estes dois mundos que se cruzam, se alternam e, numa das cenas, se relacionam. Com efeito, existe na obra original de Victor Hugo, um importante diálogo entre o condenado/protagonista e um preso de delito comum (da época); o que foi feito foi adaptar o texto do prisioneiro à actualidade cabo-verdiana e temos então um curioso diálogo entre um condenado do séc. XVIII e um outro de 1997, um falando em português, o outro respondendo-lhe em crioulo! As pequenas histórias (ou estóreas) do quotidiano actual de uma cadeia em Cabo Verde que se intercalam com a acção do protagonista são também uma oportunidade para fazer uma crítica, por vezes bastante dura, a certas realidades sociais. Os personagens-tipo são o reflexo disso mesmo. Com uma linguagem que, podendo chocar os mais sensíveis, não deixará de ser um espelho de uma realidade muito concreta: aquela que caracteriza o dia a dia de presidiários de delito comum. Temos assim neste espectáculo um Condenado dos finais do séc. XVIII que se cruza com um Homossexual, um Devoto, um Vitimado, um Revolucionário, um Degolador, um Mudo, um Delinquente, e uma Mulher que lhe entra num sonho vestida de enfermeira para lhe mostrar o quanto a vida é bela, o que acaba por funcionar como uma terrível armadilha pois é essa mesma vida que por lei dos Homens lhe vai ser retirada.

Um magnífico texto, como é o texto de Victor Hugo, não implica um bom espectáculo. Ajuda, mas não chega. Aliás, um magnífico texto, aumenta muito mais a responsabilidade de quem o coloca no palco. Nós só esperamos estar à altura do desafio, e poder dar a conhecer ao público cabo-verdiano um dos mais geniais escritores de todos os tempos. E dedicar este espectáculo a quem, hoje, justa ou injustamente, vê o sol “nascer aos quadradinhos”.

Abril 97 / João Branco
O Último Dia de Um Condenado

Ficha Técnica

Encenação
João Branco

Assitentes de Encenação
Elísio Leite e Silvoa Lima

Dramaturgia
João Branco

Dramaturgia das histórias cabo-verdianas
Colectiva

Cenografia
Paulo Miranda

Som / Iluminação
Paulo Miranda / Pedro Alcãntara e Cesar Fortes

Investigação na cadeia civil
João Crisóstomo

Actores
José Évora
Arlindo Rocha
Elisio Leite
Flávio Leite
Marlon Costa
Nelson Rocha
Nilton Sequeira
Roseno Rocha
Silvia Lima

Bailarino Convidado: Avelino Lopes


Apresentação

Dias 03, 04, 05, 06, 11 e 12 de Abril de 1997, na Alfândega Velha do Mindelo
Dia 08 de Agosto de 1997, no Centro Cultural do Mindelo
- Participação na inauguração oficial do Centro Cultural do Mindelo -
Dia 30 de Dezembro de 1997, na Cadeia da Ribeirinha

Historial: o primeiro Shakespeare

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@ "Romeu e Julieta" (1998) - foto de Cristina Peres

Foi a primeira vez, e essa nunca se esquece.

No dia de Maio de 1998, o GTCCPM estreiava a peça "Romeu e Julieta", de William Shakespeare. Pela primeira vez na história do teatro cabo-verdiano, o maior dramaturgo de todos os tempos «falava» em língua di terra.



Romeu e Julieta

Ficha Técnica

Adaptação e Encenação
João Branco
Assistentes de Encenação
Carla Sequeira e Paulo Cabral
Coordenação na tradução para o crioulo
Mário Matos
Cenografia
João Branco e Paulo Miranda
Figurinos
Anilda Rafael
Desenho de luzes
César Fortes
Som
Anselmo Fortes
Aderecista
António Coelho

Actores / Actrizes

1. OS CARDOSOS DE MONTE SOSSEGO

Ludmila Évora: julieta
Anilda Rafael: sra. Cardoso – mãe de julieta
Manuel Estevão (actor convidado): sr. cardoso – pai de julieta
Nelson Rocha: teobaldo – primo de julieta
Zenaida Alfama: ama – criada da família cardoso
Paulo Cabral: paris – noivo prometido de julieta
Reolando Andrade: abrão – companheiro de teobaldo
Roseno Rocha / João Paulo Brito: companheiro de teobaldo
Nilton Sequeira / Marlon Costa: companheiro de teobaldo

2. OS MONTEIROS DE RIBEIRA BOTE

Flávio Leite: romeu
Paulo Miranda: mercúrio (maior amigo de romeu)
Arlindo Rocha: benvindo (primo de romeu)
Edson Gomes: gregório (amigo de benvindo)
Hélder Antunes: companheiro de benvindo
António Coelho: companheiro de benvindo
Ângelo Gonçalves: pai de romeu
Maria da Luz Faria / Maria Auxilia Cruz: mãe de romeu

3. OS NEUTRAIS

João Branco / José Évora: frei lourenço
Jorge Ramos / João Branco: principe – autoridade local
Dijenira Margarete / Elisabete Gonçalves: rosalina
José Évora / João Paulo Brito: narrador e vendedor


Apresentação

Dias 30 e 31 de Maio e 5, 6 e 7 de Junho de 1998, no Centro Cultural do Mindelo
Dias 7, 8 e 9 de Maio de 1999, no Grande Auditório do Teatro Rivoli (Porto)
- Participação no Ciclo Morrer D’Amor -


A CONFIRMAÇÃO DE UM PERCURSO
De Corpo e alma
Ou o Diabo os leve a ambos

Texto inserido no programa da peça «Romeu e Julieta»


"Shakespeare, de quem não há dúvida era o mais dotado autor inglês e talvez o maior dramaturgo de toda a história do teatro, escreveu em inglês, para os ingleses da era isabelina e cremos, sem pensar muito na posteridade ou de que algum dia pudesse ser traduzido e adaptado no crioulo de Cabo Verde (oxalá um dia o seja!)"

Leão Lopes in "O que poderá ser o teatro cabo-verdiano no futuro" edição Revista Mindelact nº0, pag.27, jan-jul 97


O Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo gosta de arriscar. Basta ver o seu historial. Depois de Albert Camus, Oscar Wilde, Victor Hugo e Garcia Lorca chegou a vez do unanimemente considerado o maior dramaturgo da história do teatro: Willian Shakespeare e daquela que é, porventura, uma das suas obras mais populares e mais adaptadas ao longo dos tempos: Romeu e Julieta. Apesar das velhas e gastas discussões sobre se perde desta forma o nosso teatro a sua identidade cabo-verdiana - nós sempre defendemos que não - este tem sido por agora o caminho escolhido pelo grupo e com o mais importante dos resultados: salas cheias, pessoas satisfeitas, risos e lágrimas, sinergia comum entre quem está no palco e quem assiste aos espectáculos.

Teatro de qualidade sempre foi o nosso desafio. Se é verdade que os nossos parâmetros e exigências próprias tem aumentado, o público, o nosso público, em crescendo e reconquistado a cada nova estreia, (e já lá vão 17 produções) sempre foi e sempre será soberano. A conclusão de que determinada aposta foi ganha nunca será feita por nós, parte interessada, e cuja análise do objecto artístico nunca poderá ser desinteressada e desligada do sentimento generalizado de que tudo foi feito para ser apresentada uma obra no mínimo interessante e cativante. Essa análise sempre foi e sempre será feita pelo outro lado. O público. E este, perdoem-me os fundamentalistas que insistem numa retórica que chega a ser intelectualmente desonesta, tem-nos dado carta branca para continuar. É o que faremos enquanto se mantiver acesa esta paixão que todos os membros deste grupo sentem pelas artes dramáticas, enquanto que os actores e actrizes que todos os anos "lançamos" nesta aventura mostrarem o talento e a coragem que evidenciam, mais uma vez, neste espectáculo.

Esta é uma adaptação moderna do texto shakespeareano, não se tendo procurado uma boa adaptação da peça, no sentido de manter a fidelidade absoluta à concepção original, mas sim rever e transpor a história para os tempos modernos, através de uma linguagem teatral que as novas gerações possam absorver mais facilmente.

De qualquer maneira, a grande maioria das palavras usadas na peça, são directamente originárias da pena genial do dramaturgo inglês. Os diálogos e monólogos, cuidadosamente traduzidos para o crioulo pelo Sr. Mário Matos, foram respeitados (e como ficam belos muitos excertos de Shakespeare traduzidos e falados em crioulo!). A adaptação sofreu alguns cortes, resultado de uma necessidade de modernização do texto original e de um maior ritmo e pulsar da peça, mais ao estilo dos frenéticos anos 90. Mas é curioso verificar como todo o texto que fica, apesar de escrito há mais de duzentos anos, se mantém actual. Aqui, a universalidade, não é só espacial mas também temporal, o que comprova a genialidade do autor.

Mindelo dos anos noventa e a sua juventude são retratados como a vemos hoje todos os dias. As suas guerras, as suas paixões, as suas roupas (predominância absoluta para o branco e preto), os seus tiques. A influência da cultura anglo-saxônica, mormente norte americana, bastante vincada na nossa juventude de hoje, principalmente do Mindelo, está presente ao longo do espectáculo. O sentido de humor e a fina ironia, que pensamos ser uma das mais peculiares características do cidadão do Mindelo, assim como de muitos textos de Shakespeare, estão também presentes ao longo de todo o espectáculo, em muitos dos personagens e em várias das peripécias ao longo do desenrolar da história, que de qualquer forma, mantém o seu cunho extremamente dramático.

A história é a mesma de sempre. Amantes de famílias rivais, neste caso oriundas de dois bairros do Mindelo, - Ribeira Bote e Monte Sossego - o amor impossível e a tragédia final. No fundo é também, e de certa forma, o exacerbar do amor físico. Romeu desiste do amor de outra, e ambos se entusiasmam pela mera aparência um do outro, numa cena que se poderia passar (quantas vezes se passa…) na nossa Praça Nova, num sábado à noite.

O romantismo que hoje é assumido pelos jovens de forma superficial e ligeira, quase leviana, por vezes com grandes distâncias entre o que se diz e o que se faz na vida, tem nesta história um tratamento o mais sincero possível. Acreditamos que o verdadeiro romantismo, e que paira latente e envergonhado sobre as nossas cabeças, se possa revelar nos corações adormecidos de quem vir esta história de amor, do nosso Romeu e da nossa Julieta, jovens cabo-verdianos, sem preconceitos nem medos de sentir a magia do verdadeiro amor vivido. De corpo e alma, ou o Diabo os leve a ambos.

Maio 98 / João Branco

MÁRIO MATOS – COORDENADOR NA TRADUÇÃO PARA O CRIOULO

Escrever em crioulo não é fácil. Mas também não é difícil. Tudo depende do assunto a tratar.

No caso de "Romeu e Julieta", não foi fácil. É uma peça teatral daquele que foi o maior poeta dramático da Inglaterra – Willian Shakespeare.

A dificuldade era passar para o crioulo uma peça dramática, traduzida do inglês para o português. Era preciso manter todo o dramatismo que Shakespeare pôs na sua obra. Esta é que foi a maior dificuldade.

De parabéns está o Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, no prosseguimento desta nova forma de fazer teatro.

Maio 98 / Mário Matos

Historial: Um Sonho experimental

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@"Sonhos", 1995 - foto de Augusto Baptista
A peça começa com a entrada em cena de quatro homens pré-históricos. Farejam o público, simulam actos sexuais, lutam entre si e descobrem o fogo. Os primeiros 15 minutos de peça não tem texto. Estava dado o mote e Mindelo pressentia que, finalmente, o experimentalismo teatral havia chegado a Cabo Verde.
Sonhos

Este trabalho é o resultado de uma montagem feita a partir de propostas cénicas dos próprios actores. Não tem nenhum pressuposto teórico. Para cada pessoa terá uma explicação e daí a sua magia. E como um sonho é sobretudo um conjunto de imagens, o que prevalece neste espectáculo é a composição plástica. Mas nada é impossível. Tudo se transforma. Tudo é sonho.

Ficha Técnica

Coordenação
João Branco
Dramaturgia e Encenação
Colectiva
Poema Final: «Funeral Blues» de W. H. Auden
Som / Iluminação
João Branco / Pedro Alcântara

Actores
Adilson Rocha
Adriano Reis
Cesarina Lopes
Elisângelo Ramos
Euclides Sequeira
Gabriel Reis
Gisela Monteiro
João Paulo Brito
Júlio Santos
Paulo Cabral
Paulo Miranda
Silvia Lima

Participaram ainda em alguns espectáculos, substituindo os actores iniciais: Nelson Rocha, Matilde Sequeira e Elisabete Gonçalves


Apresentação

Dias 24, 25 e 26 de Março de 1995, no Centro Cultural Português do Mindelo
Dias 2, 3 e 4 de Junho de 1995, no Centro Cultural Português do Mindelo
Dia 25 de Agosto de 1995, no Centro Cultural Português do Mindelo
Dia 02 de Setembro de 1995, no Centro Cultural Português do Mindelo
- Participação no Festival Mindelact 95 -
Dia 20 de Setembro de 1995, na Escola Técnica do Mindelo
Dia 31 de Dezembro de 1995, na Prisão da RibeirinhaDia 27 de Maio de 1996, no Club Náutico do Mindelo

Historial: As Lágrimas de Lafcádio

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@"Lágrimas de Lafcádio", 1995 - foto de Manu Preto



As Lágrimas de Lafcádio

Em 1996, o GTCCPM volta a surpreender com uma peça diferente de tudo o que Cabo Verde já vira, numa ousada encenação do italiano Lamberto Carrozzi. O choque foi grande, o sucesso também. Falou-se de morte, de sexo, de traição e de violência. Sem tabus!


O Teatro Como Traição
Texto inserido no programa da peça «As Lágrimas de Lafcádio»
Encontro-me pela terceira vez a realizar um balanço sobre uma experiência teatral em mindelo, três momentos diferentes, unidos sempre pelo mesmo objectivo: fazer teatro. Pela terceira vez encontro um grupo que com tenacidade e sacrifício segue percorrendo um caminho complicado e cheio de obstáculos, como aquele que leva ao teatro: a arte de fazer espectáculos, de entreter um público, e seduzi-lo, para contar mentiras e verdades, para o surpreender, e talvez o enganar, mesmo durante só uma hora, com a idéia de que o Teatro ainda está vivo e é capaz de interpretar o presente. Sobretudo hoje e sobretudo em contraste com uma realidade que já decretou o fim mesmo do Teatro. No curso destas três experiências mindelenses, as pessoas que ficaram a meu lado amadureceram. O Teatro para eles já não é mais só um jogo, existe a necessidade de aprofundar. Nasceu então quase espontaneamente um atelier de dramaturgia, onde eu propus trabalhar sobre dois textos, de dois grandes escritores franceses, Gide e Camus. Dois textos muito diferentes entre eles mas em alguns aspectos consequenciais. Nos dois, existe um delito cometido a sangue frio. No romance de Gide («As Caves do Vaticano»), o delito é realizado na completa consciência do acto assassino, e no de Camus («O Estrangeiro»), o homicídio se consome na casualidade e na mais completa ignorância da existência do crime. A grande actualidade das duas obras permitiu trabalhar sobre temáticas sempre fundamentais na vida de todos em qualquer lugar do mundo. Uma condição necessária visto que o projecto envolve pessoas de quatro nacionalidades distintas. Começamos o trabalho num clima de grande confiança recíproca, sem a qual teria sido impossível enfrentar argumentos delicados e difíceis, como os que envolvem a morte, a loucura, o sexo, o amor e a culpa. «Lafcádio», um dos protagonistas do romance de Gide, foi escolhido como ponto de convergência entre a nossa experiência teatral e as duas obras literárias. O «nosso Lafcádio» também mata com o único objectivo de verificar se é capaz de chegar a tal extremo. O «nosso Lafcádio» também mata sem perceber, mas o destino do «nosso Lafcádio» desenvolveu-se num percurso autónomo que não existe nem em Gide nem em Camus. Esta traição formal foi feita conscientemente para melhor captar o espírito, a lição das duas obras. O «nosso Lafcádio» é tão perigoso quanto indefeso. É incapaz de conviver porque não sabe esconder as suas próprias anárquicas pulsões, que o condenam à solidão. Seguramente, vive numa cidade muito maior do que ele, e que não é a sua, onde luta contra a angústia e o abandono de uma maneira tão ingénua quanto violenta. Para nós foi muito complicado o julgamento deste personagem, pois que direito teríamos de condenar ou absolver «Lafcádio»? Sobretudo depois de nos ter dado a oportunidade de trabalhar em conjunto. Então, quero agradecer a «Lafcádio». Quero agradecer também a João Branco pelo respeito que tem pelo meu trabalho, respeito esse recíproco. Agradeço aos actores do Centro Cultural Português por terem aceite com coragem este desafio, que segundo a lição de «Lafcádio» foi enfrentado de uma forma total.
Abril 95 / Lamberto Carrozzi

A silhueta de Lafcádio
Texto inserido no programa da peça «As Lágrimas de Lafcádio»
Ao convidar Lamberto Carrozzi para dar corpo a um novo projecto teatral, o Centro Cultural Português (Mindelo e Praia) prova mais uma vez, se preciso fosse, a enorme importância que esta forma artística tem na divulgação cultural, que é a principal função dos Centros Culturais (sejam eles em que país forem, estejam eles em que país estiverem). Em Mindelo o teatro é tratado com carinho especial, e sem fugirmos à verdade nem ao espírito de humildade que sempre caracterizou o nosso trabalho, podemos afirmar que este está inequivocamente ligado à renovação que se tem vindo a sentir desde 93, no teatro mindelense. Para além de funcionar como «um canteiro de novos actores» (jornal «A Semana»), encara o teatro como uma arte de expressão onde tudo é possível, onde a única regra é não haver regra nenhuma e onde o cunho de ousado e provocador dado ao teatro desenvolvido neste Centro não é só adjectivação incoerente e frívola para bom letrado entendedor. Principalmente por isso, a oportunidade de conhecer e trabalhar com Lamberto Carrozzi à dois anos no atelier teatral desenvolvido pela associação «Caliban» e que esteve na origem da peça «Sofias» (a partir do texto «Filumena Marturano» de Edoardo de Filippo), foi um passo decisivo em tudo o que foi feito posteriormente. Foi, pois, com grande entusiasmo que os actores e o responsável do grupo de teatro do Centro Cultural Português, acolheram a vontade deste encenador em voltar a desenvolver um projecto teatral em Mindelo. Daí até à escolha do texto inicial (em constante modificação e pós-construção durante os ensaios, encarados também como atelier dramatúrgico), das temáticas envolvidas, dos actores disponíveis e desde o início solidários e prontos a arriscar, foi um passo. Um passo que deu origem à peça «As Lágrimas de Lafcádio», e que com seis actores cabo-verdianos, dois Centros Culturais Portugueses, um encenador italiano e textos construídos a partir de dois escritores franceses (André Gide e Albert Camus), vem demonstrar a profunda inter-culturalidade que caracteriza este projecto, o que é uma das características do mundo moderno. Porquê «As Lágrimas de Lafcádio»? Citando Peter Brook: «Quando um espectáculo termina, o que permanece? O divertimento pode ser esquecido, mas as emoções fortes também desaparecem e as belas polémicas perdem o fio; quando a emoção e a polémica estão sujeitos a um desejo da platéia de se ver internamente com mais clareza, então algumas coisa arde na mente. O acontecimento imprime a fogo na memória um traço, um sabor, um perfil, um odor – um quadro. É a imagem central da peça que permanece, a sua silhueta, e se os elementos estiverem ligados correctamente, esta silhueta será o significado da peça (...)» E se assim não fôr? O público, sempre o público, ditará a sua sentença. De qualquer forma não vale a pena chorar sobre o leite derramado.
Abril 95 / João Branco

Ficha Técnica

Encenação
Lamberto Carrozzi
Elaboração Dramatúrgica
Colectiva
a partir de “O Estrangeiro” de Albert Camus e “As Caves do Vaticano” de André Gide
Assistência de Encenação
João Branco
Cenografia
Lamberto Carrozzi e João Branco
Figurinos
Mirita Veríssimo
Som / Iluminação
João Branco / Pedro Alcântara

Actores
João Paulo Brito
Gabriel Reis
Paulo Miranda
Silvia Lima
Elisângela Monteiro
Elisângelo Ramos

Assessoria de Imprensa: Elisângelo Ramos



Apresentação

Dias 21, 22 e 23 de Abril de 1995, no Centro Cultural Português do Mindelo
Dia 01 de Setembro de 1995, no Centro Cultural Português do Mindelo
- Participação no Festival Mindelact 95 -
Dias 28 e 29 de Abril de 1995, no Centro Cultural Português da Praia