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Actualidade: «Mulheres na Laginha»

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«Mulheres na Laginha»
38ª Produção Teatral

A partir de textos de Germano Almeida.


Estreia prevista - Setembro 2006

Começaram os ensaios para a nossa 38ª Produção Teatral. A peça, com um elenco integralmente feminino, promete muito tempero, conversas quentes e língua solta nas cálidas areias da Laginha. Alguém vai ficar com as orelhas quentes...



As malandrices do Germano Almeida vão ganhar vida nos palcos do Mindelo...

@ Ilustração: Pablo Picasso «Mulheres Correndo na praia»

Peças em Imagens: Os Dois Irmãos (1999)

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A obra de Germano Almeida no palco, num dos maiores sucessos da nossa história

Historial: "Os Dois Irmãos" (1999)

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Esta produção teatral marcou, por várias razões. Entre as mais significativas estão o facto de dramatizar um dos mais geniais romances de Germano Almeida, de ter colocado um grupo de teatro mindelense a contar uma história de Santiago, sem precisar de recurso folclorista para se mostrar "genuíno" e porque foi para este espectáculo que Orlando Pantera compôs temas originais...


Um desafio Fascinante
Texto inserido no programa da peça «Os Dois Irmãos»

Estes dois irmãos andam-me a perseguir há já algum tempo, André e João, irmãos de sangue de uma qualquer rubêra do interior de Santiago, povoam o meu imaginário dede o dia em que li o romance de Germano Almeida. Um projecto que foi sendo sucessivamente adiado, substituído por outros, não pela sua menor importância, mas antes pela enorme responsabilidade que para nós representava pôr no palco um romance do mais popular e mediático escritor cabo-verdiano. Depois, o romance escolhido, “Os Dois Irmãos”, apresenta uma dramaticidade tal, que nos admiramos não só pela beleza do livro – mas sobre isso escreverá melhor do eu a Ana Cordeiro – mas sobretudo por este ainda não ter sido adaptado ao cinema, à televisão ou, até agora, ao teatro. Se o ponto de partida fundamental para qualquer projecto audiovisual é uma boa história, então este romance é matéria-prima de finíssima qualidade. Aliás, desta mina de talento que é o Germano Almeida, haverá com certeza muitos outros filões por explorar, que proporcionarão no futuro mais filmes, séries de televisão ou peças de teatro, embora seja uma pena que o escritor nos «obrigue» a queimar muitos e indispensáveis neurónios nas adaptações, já que, como ele próprio já nos repetiu, dificilmente se aventurará por esse campo tão complexo que é, sem dúvida, o da dramaturgia, para grande lamento nosso. Até porque nos facilitava o trabalho.

Mas desta vez é que foi. Partimos para a adaptação, eu e o Francisco Cruz, ficando muitas vezes com os olhos em bico com a complexidade da estrutura narrativa do autor, que salta no tempo, de uma linha para a outra, com que imune a qualquer tipo de regra naturalmente aceite para uma forma de escrita mais rígida (e ainda bem que assim é!).

Alguns meses de trabalho foi quanto durou a adaptação, partindo de um pressuposto de encenação que sempre foi para nós bastante claro: a peça deveria retratar o julgamento de André, efectuado na escola primária do local onde o crime teve lugar. A partir daí, foi para nós interessante, e esperamos que o seja para o nosso público, escolher as situações que no local foram determinantes para a ocorrência do horrendo e inexplicável crime. Porque num aspecto o livro – escrito a partir de uma história verídica, diga-se de passagem – é claro: André, então emigrado em Lisboa, não regressou a casa para consumar nenhum tipo de vingança contra o irmão. Nem ficou claro se o que o pai viu, e que originou a carta escrita ao filho emigrado contando a suposta traição do irmão, realmente aconteceu. O mais dramático de toda a situação é o facto de, provavelmente, a traição de João – uma alegada relação sexual com a mulher com quem André casara apressadamente antes de partir para o estrangeiro – nunca ter realmente acontecido e tudo não ter sido senão o resultado da imaginação delirante de um homem já idoso, muito agarrado aos conceitos da honra e tradição familiar. Dar a perceber, e colocar isso no palco, toda a carga negativa que se gerou na aldeia pelo facto de André não consumar a vingança contra o irmão logo após a sua chegada, e descrever o desenvolvimento que acabou por consumar o que todos esperavam que acontecesse desde a primeira hora, eis o grande desafio do nosso grupo, porque só criando esse ambiente se conseguiria captar a verdadeira essência da obra.

Tivemos várias vezes que conversar com o escritor para saber mais pormenores sobre o julgamento. Assistimos a vários julgamentos actuais, para perceber como decorrem normalmente os processos judiciais e o funcionamento de um tribunal. Estudamos, com todo o cuidado, o envolvimento geográfico da história, ou seja, o interior de Santiago, com a preocupação de sermos fiéis ao crioulo local, aos costumes e aos figurinos, numa história acontecida pouco depois da independência nacional. Foi para nós de enorme importância a colaboração de muitas pessoas de Santiago, com quem tivemos a preocupação de estar em contacto, de levar para os ensaios, não só para uma questão de controle da língua, mas também para sentir se o caminho escolhido para captar o espírito dessa região, naquela época, estava a ser correctamente delineado.

Podemos afirmar, e temos consciência disso, que não deixa de ser uma grande ousadia, um grupo de sampadjudos concretizarem um espectáculo feito a partir de uma obra literária que retrata de uma forma tão brilhante a cultura e a vivência de uma comunidade do interior da ilha de Santiago, tão rica, e ao mesmo tempo, tão misteriosa. Foi para nós um desafio que foi sendo superado dia a dia, nos ensaios, até porque a qualidade literária do guião dramatúrgico, quase na totalidade saído das páginas do romance adaptado, nos aumentava o prazer de concretizar este trabalho cénico. Esperamos, sinceramente, que este prazer seja compartilhado por todos quantos vejam este espectáculo.

O cenário, concebido pelo artista Manuel Dias, baseia-se na concepção de que estamos num tribunal adaptado, dentro de uma sala de aula de uma escola primária. Os flash-back’s que a toda a hora nos levam a viajar até ao cerne dos acontecimentos, foi concebido de forma a dar uma outra dimensão estética e temporal, para que mais facilmente possamos ser transportados para o interior daquela aldeia. O público, durante todas as cenas do julgamento, faz parte do cenário. São a audiência do tribunal, e como tal são levados a agir, inclusive com o pedido de se levantarem para a entrada do juiz. Todos esperamos que durante o normal desenrolar de todo o processo judicial não haja a necessidade de solicitar a intervenção das forças policiais para que o respeito ao tribunal não seja nunca posto em causa. O público é assim convidado a participar nesse jogo do fazer teatral, que a todos dá prazer, já que sem ele, não se justifica a presença de nenhum dos elementos integrantes desta forma de expressão artística.

O músico Orlando Pantera, profundo conhecedor da cultura daquela região do país, é um trunfo importante, que com grande orgulho integramos na ficha artística. Ao convite, de imediato pôs mãos à obra, não só concebendo temas inéditos, como gravando, em exclusivo, outros temas já compostos e da sua autoria, que se adaptassem às diversas peripécias da estrutura narrativa. O talento de Orlando Pantera fica patente em cada um dos sons deste espectáculo e dá a esta produção uma cor que, na nossa opinião, em muito contribui para um mais fiel retrato social e regional da história.

Finalmente, falar dos actores, principais obreiros desta produção. Foram exemplares na forma como procuraram assimilar uma realidade cultural e social que não é de forma alguma a deles, da qual muitas vezes se sentiam afastados, devido a alguns discursos demasiado bairristas, que infelizmente ainda hoje são uma realidade no nosso país e que servem só para afastar umas das outras as diferentes vertentes culturais do povo cabo-verdiano. Com o talento demonstrado por estes actores ao longo dos ensaios é para o encenador um privilégio trabalhar. O esforço, a dedicação e talento mais uma vez demonstrados, é como que uma imagem deste grupo de teatro, que comemora com esta fascinante história, as suas 20 produções teatrais, em seis anos de existência, facto mais do que qualquer outro, valerá para uma avaliação do que toda esta boa gente tem feito e contribuído para uma verdadeira e sustentada evolução das artes cénicas em Cabo Verde.

Março 99 / João Branco

Os Dois Irmãos

Ficha Técnica

Encenação
João Branco

Adaptação Dramatúrgica
Francisco Cruz

Cenografia
Manuel Dias

Música Original
Orlando Pantera

Figurinos
Anilda Rafael

Desenho de luzes
César Fortes

Sonoplastia
Anselmo Fortes

Aderecista
Helder Antunes

Assistente de ensaios
Elísio Leite

Actores / Actrizes
José Évora – André
Jorge Ramos – João
Francisco Cruz – pai
Gabriela Graça - mãe
Ângelo Gonçalves - Juiz
Flávio Leite - Agente do Ministério Público
Manuel Estevão - Advogado de defesa
Nelson Rocha - Oficial de diligências
Manuel Dias – Domenico
Elísio Leite – Furtado
Arlindo Rocha – Pedro Miguel
Carla Sequeira – Maria Joana e batucadeira
Zenaida Alfama – Vizinha
Edson Gomes – João o Tanso
António Coelho – pai de Maria Joana
Odair Lima – polícia
Elisabete Gonçalves – batucadeira

Apresentação
Dias 26, 27 e 28 de Março e 2, 3 e 4 de Abril de 1999, no Centro Cultural do Mindelo

Historial: Condenados ao sucesso

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@ "O Último Dia de Um Condenado", 1997 - foto de Valdemar Lopes



O Último Dia de Um Condenado

Em 1997 o nosso grupo resolveu tentar responder a um desafio: pegar num texto de importância histórica de Victor Hugo - «O Último Dia de um Condenado» e fazer com ele uma peça actual para Cabo Verde. Quando foi apresentada na cidade da Praia, um espectador escreveria, espantado: «Foi uma agradável surpresa descobrir que em Cabo Verde há quem faça teatro de tão boa qualidade».

Para quem vê o sol
“nascer aos quadradinhos”.
Texto inserido no programa da peça «O Último Dia de Um Condenado»


Esta é acima de tudo, uma peça sobre homens que, justa ou injustamente, se viram privados da sua liberdade. Resolvemos por isso, juntar um texto poético e de elevada carga dramática, escrito num contexto histórico passado, estóreas de presidiários actuais, feitas depois de uma investigação realizada na penitenciária de S. Vicente. São duas realidades concretas que se confrontam e se misturam, dois contextos diferentes cujos valores se confundem, duas culturas, duas línguas, um mesmo drama: o presídio, a condenação, a privação da liberdade.

Para criar uma maior dinâmica no espectáculo, e para tornar o próprio texto de Victor Hugo mais atractivo para o público cabo-verdiano, criaram-se dois mundos distintos: um do final do séc. XVIII, com personagens que falam um português de elevada carga dramática e poética (oriundo do texto de Victor Hugo), e onde se relatam os últimos pensamentos de um condenado à morte cuja sentença se irá executar no final (através dessa terrível máquina da morte que foi a guilhotina, e que estará presente na cenografia), e onde está bem patente o gênio da escrita de Victor Hugo; um outro, actual, dos anos 90, onde contracenam prisioneiros cabo-verdianos, com suas histórias do quotidiano (escritas a partir de uma série de entrevistas que foram feitas a vários prisioneiros e ex-prisioneiros de delito comum da Cadeia Civil de S. Vicente) e cujo texto é dito em crioulo. São estes dois mundos que se cruzam, se alternam e, numa das cenas, se relacionam. Com efeito, existe na obra original de Victor Hugo, um importante diálogo entre o condenado/protagonista e um preso de delito comum (da época); o que foi feito foi adaptar o texto do prisioneiro à actualidade cabo-verdiana e temos então um curioso diálogo entre um condenado do séc. XVIII e um outro de 1997, um falando em português, o outro respondendo-lhe em crioulo! As pequenas histórias (ou estóreas) do quotidiano actual de uma cadeia em Cabo Verde que se intercalam com a acção do protagonista são também uma oportunidade para fazer uma crítica, por vezes bastante dura, a certas realidades sociais. Os personagens-tipo são o reflexo disso mesmo. Com uma linguagem que, podendo chocar os mais sensíveis, não deixará de ser um espelho de uma realidade muito concreta: aquela que caracteriza o dia a dia de presidiários de delito comum. Temos assim neste espectáculo um Condenado dos finais do séc. XVIII que se cruza com um Homossexual, um Devoto, um Vitimado, um Revolucionário, um Degolador, um Mudo, um Delinquente, e uma Mulher que lhe entra num sonho vestida de enfermeira para lhe mostrar o quanto a vida é bela, o que acaba por funcionar como uma terrível armadilha pois é essa mesma vida que por lei dos Homens lhe vai ser retirada.

Um magnífico texto, como é o texto de Victor Hugo, não implica um bom espectáculo. Ajuda, mas não chega. Aliás, um magnífico texto, aumenta muito mais a responsabilidade de quem o coloca no palco. Nós só esperamos estar à altura do desafio, e poder dar a conhecer ao público cabo-verdiano um dos mais geniais escritores de todos os tempos. E dedicar este espectáculo a quem, hoje, justa ou injustamente, vê o sol “nascer aos quadradinhos”.

Abril 97 / João Branco
O Último Dia de Um Condenado

Ficha Técnica

Encenação
João Branco

Assitentes de Encenação
Elísio Leite e Silvoa Lima

Dramaturgia
João Branco

Dramaturgia das histórias cabo-verdianas
Colectiva

Cenografia
Paulo Miranda

Som / Iluminação
Paulo Miranda / Pedro Alcãntara e Cesar Fortes

Investigação na cadeia civil
João Crisóstomo

Actores
José Évora
Arlindo Rocha
Elisio Leite
Flávio Leite
Marlon Costa
Nelson Rocha
Nilton Sequeira
Roseno Rocha
Silvia Lima

Bailarino Convidado: Avelino Lopes


Apresentação

Dias 03, 04, 05, 06, 11 e 12 de Abril de 1997, na Alfândega Velha do Mindelo
Dia 08 de Agosto de 1997, no Centro Cultural do Mindelo
- Participação na inauguração oficial do Centro Cultural do Mindelo -
Dia 30 de Dezembro de 1997, na Cadeia da Ribeirinha

O Mundo do Teatro em Cabo Verde

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Um artigo de Germano Almeida

O Mundo no Teatro em Cabo Verde
a propósito da estréia do espectáculo «Romeu e Julieta»

Se o isolamento em que vivemos ao longo dos séculos teve a vantagem de fazer com que Cabo Verde funcionasse com uma espécie de laboratório onde diversas raças e culturas se viram em forçado e estreito contacto e na maioria do tempo irmanadas pelas grandes tragédias que eram as secas que assolavam as ilhas, mas acabando por surgir desse convívio essa particular forma de estar e de ver o mundo a que chamamos cabo-verdianidade, também não podemos negar que esse mesmo isolamento é igualmente responsável por não poucas perniciosas formas de encarar a vida que acabamos alcandorando como apanágio do ilhéu, quando na verdade mais não são que a auto-suficiência de quem eternamente vive com os olhos no próprio umbigo.

Por mim sempre achei que essa ausência de contacto com o exterior, essa infelicidade de não termos que nos comparar e muito menos concorrer, tinha a suprema desvantagem de nos fazer continuar fechados nessa torre de basofaria nacional que afinal das contas é uma das principais responsáveis por atrasos a muitos e diversos níveis que recusamos reconhecer simplesmente porque isso fere o nosso incomensurável orgulho.

Ora o Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo teve o mérito de trazer pelo menos duas coisas, não apenas ao teatro cabo-verdiano, mas também à nossa sociedade em geral: primeiro, a humildade, a seguir, a percepção de que o mundo não se esgota em nós mesmos.

Essa humildade não é senão decorrência de uma abertura a outras formas de sociedade e de cultura que acabam fatalmente por se interpenetrar com a nossa pelas formas mais diferentes, mais especificamente neste caso através de adaptações de obras literárias de grandes autores que a Humanidade conheceu e que, interpretadas à luz da realidade destas ilhas e usando com instrumento o crioulo, nada perdem da sua graça e magia, mas pelo contrário como que ganham um fôlego renovado. Duas delas me marcaram particularmente: «A Casa de Nha Bernarda» e «Romeu e Julieta». Onde quer que se encontrem, tanto Garcia Lorca com Shakespeare devem ter-se sentido honrados ao verem-se adaptados e representados em crioulo de Cabo Verde.

Germano Almeida – Maio de 97