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Proscénio: cartaz Conde Abranhos

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Nota de Abertura: a componente gráfica teve sempre uma grande importância no nosso grupo. Aliás, a artista plástica Luisa Queirós, que venceu no mês passado o Prémio de Mérito Teatral, tem sido uma colaboradora assídua do grupo, assim como outros artistas de renome como Manuel Figueira ou Tchalé Figueira. Dos cartazes e das ilustraçõe que lhes serviram de base, daremos conta nesta nova secção do nosso blog dedicado à componente gráfica do grupo.

Cartaz da peça "O Conde d'Abranhos"




Ano: 2001
Autoria: Neu Lopes

"O Auto da Compadecida" - 03, 04 e 05 de Março

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O mês do teatro cabo-verdiano inicia-se em S. Vicente com a apresentação da peça "O Auto da Compadecida", do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo - ICA, nos próximos dias 03, 04 e 05 de Março. Se quiser ver a peça que foi considerada por muitos como a melhor da última edição do festival mindelact 2005, esta é a oportunidade. Veja aqui o como e o porquê deste espectáculo.


SIMPLESMENTE TERRA (texto do programa)

Se tivesse que escolher um elemento ou uma palavra que melhor se identificasse com este espectáculo, não hesitaria nem um segundo: terra.

A verdade é que desde sempre me fascinaram os castanhos de Cabo Verde. A paisagem, cuja aparência pode ser de uma pobreza extrema, onde sobressaem as pedras e a terra seca, mas que é de uma beleza plástica e visual sem paralelo. E se há peças de teatro que conseguem transportar essa essência do ser crioulo para o palco, esta é, com certeza, uma delas,

Estamos a falar de um texto brasileiro, por muitos considerado a mais popular peça de teatro desse país imenso que é o Brasil. Nela aplicamos a nossa crioulização, na língua falada, por alguns personagens, em algumas ocasiões; nos objectos utilizados, nas músicas utilizadas ou no ambiente construído, conferindo-lhe uma alma cabo-verdiana e procurando transmitir a forma de estar e ser deste povo. Não foi muito complicado, porque a verdade é que os personagens, as situações, o ambiente, as cores, a alma, sendo nordestina, é já de si crioula. Não foi preciso mexer muito, adaptar muito, porque ela, a crioulização, já lá estava, na peça original. Mais uma demonstração, se preciso fosse, das profundas afinidades históricas, culturais, sociais e humanas entre o Brasil e Cabo Verde, principalmente, na região do Nordeste, cuja seca e pobreza extrema facilmente nos remete para o universo das ilhas.
Deve se referir que tudo isto não seria possível de ser afirmado se não fosse o trabalho de Bento Oliveira, a quem tiro o meu chapéu, pelo valor e originalidade da obra e do estilo. Não foi por acaso que o convite para entrar neste projecto foi feito quando vi uma exposição dele no Mindelo e lhe disse, sem hesitações: “mas isto aqui é o «meu» cenário da Compadecida!” Estava lá tudo o que procurava para a “nossa” compadecida: os materiais, as texturas, as cores, os cheiros, ou simplesmente, a presença inolvidável da terra seca de Cabo Verde.

Outro elemento fundamental que contribui para a marcada cabo-verdianidade desta adaptação, é o desenho de luzes feito por César Fortes, que com o seu talento, pinta, como se de um grande artista plástico se tratasse – e no fundo, não é isso que ele é? – ampliando e dando corpo a tudo o que é visto em cima do palco.

Finalmente, dizer que considero este elenco um dos melhores com quem já tive o privilégio de trabalhar. Talvez não seja por acaso se pensarmos que este elenco, mais do que qualquer outro, representa um movimento teatral que se iniciou à cerca de 15 anos atrás, com actores oriundos de sete dos dez cursos de teatro até então ministrados nesta casa, desde o João Paulo, que participou no primeiro, há mais de doze anos, até ao Luís Miguel, recém formado no décimo curso o ano passado. Se isto não representa uma “escola” de arte dramática, anda lá muito perto. Uma escola da terra. Escola terra. Simplesmente.

João Branco

"O Doido e a Morte" em estreia

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Ao iniciar a pesquisa para escrever o presente texto, descobri algo de surpreendente: o autor desta peça nasceu e morreu precisamente no mesmo ano do grande poeta e escritor cabo-verdiano Eugénio Tavares, homenageado pelo nosso grupo de teatro há precisamente um ano. Não passa de uma coincidência, mas fiquei radiante com a descoberta, vá-se lá saber porquê!

Quando li a peça pela primeira vez, fiquei muito interessado. E o entusiasmo foi crescendo com os ensaios, porque dito pelos actores o texto é ainda mais imponente. É de uma qualidade imensa e ao mesmo tempo cruel, seco e implacável, perfeitamente adaptável aos tempos modernos, aliás como a própria situação criada comprova, dada a sua triste actualidade.

Basicamente, a situação é muito simples: dois personagens, um poderoso, porque é Governador, calmamente instalado no seu gabinete climatizado, o outro, que entra com uma bomba super potente, anunciando com a maior calma do mundo que passados alguns minutos, irá tudo pelos ares. Traz consigo, diz ele, a morte debaixo do braço.

A estreia desta peça em Portugal, fará no próximo dia 01 de Março oitenta anos exactos, foi marcada por deliciosas intrigas de bastidores, que visavam suprimir a última fala, a fim de «não ofender a decência dos ouvidos das senhoras». Com efeito, o pano chegou a cair antes do final mas, por exigência do intérprete, voltou a subir para que a réplica em causa pudesse então ser dita, conferindo, assim, mais impacto àquilo que, puritanamente, se queria censurar…

A peça foi classificada pelo teatrólogo Luiz Francisco Rebello como «a mais singular e genial obra dramática do século XX português». Este autor refere ainda que Raul Brandão sentia-se atraído pelo teatro e pelo «prestígio enorme» que, nas suas palavras, «quatro tábuas, dois ou três farrapos de lona a cheirarem a tinta exercem sobre todos os homens de imaginação». Estamos perante uma obra que deixa transparecer um sentimento do absurdo ligado ao grotesco gerado pela discrepância entre a realidade e o sonho, entre a grandeza e a abjecção, entre a morte que é a vida e o sonho da eternidade.

Considerada uma pérola da história da dramaturgia portuguesa – e em língua portuguesa - «O Doido e a Morte», é uma farsa existencial, onde talvez faça sentido falar de expressionismo, por se tratar da revolta de um indivíduo perante a crueldade, a incongruência, a abjecção do mundo moderno e porque a obra de Raul Brandão está cheia de «gritos» que fazem com que tenhamos sempre presente o quadro de Munsch, «O Grito».

A encenação inspira-se, precisamente, nesta ideia e neste paradigma. Daí a opção pela utilização das máscaras, o estilo de interpretação, os próprios adereços, figurinos, som e luz. Digamos que toda a plástica da peça, seja ela interpretativa, sonora ou visual, é o retrato de um imenso grito que pode servir, senão para acordar deste estranho sonho que é o presente, pelo menos para nos tornar mais alertas no futuro.

Finalmente, dedico este espectáculo aos actores, pelo esforço, dedicação e pelo enorme desafio que, com trabalho e talento, penso terem sabido ultrapassar.

João Branco