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No Inferno: a crítica de Ricardo Riso

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Ricardo Riso, brasileiro especialista em literaturas africanas de língua portuguesa, assistiu à apresentação da peça "No Inferno", no FESTILP, no Rio de Janeiro e escreveu uma crítica ao espectáculo que, com a devida autorização, passamos a publicar:


Uma feliz adaptação de um difícil texto de Arménio Vieira
Por Ricardo Riso

O que podemos esperar de uma peça teatral? Que ela tenha um elenco afinado e competente, uma direção segura, iluminação e música em sintonia com os factos narrados, um figurino coerente com o tema, dentre outros factores. O que acontece quando se encerra um espectáculo e encontramos o que foi supracitado e ainda nos deparamos com outras agradáveis surpresas, superando nossa expectativa? Só nos resta aplaudir, de pé, é claro, com o sorriso de satisfação escancarado e cumprimentar os integrantes da companhia teatral nos camarins. Tudo o que foi relatado até aqui é exatamente o que sentimos ao término da peça “No Inferno”, texto do cabo-verdiano Arménio Vieira e encenada pelo Grupo de Teatro do Centro Cultural Português – Mindelo/Cabo Verde, no FESTLIP 2009.

Com direção do competentíssimo João Branco, o GTCCPM foi criado no ano de 1993 e já encenou quarenta e três peças, mostrando um fôlego impressionante. O GTCCPM é hoje referência teatral em Cabo Verde e já levou para os palcos textos dos compatriotas Eugénio Tavares, Germano Almeida e Mário Lúcio Sousa, adaptou peças para o crioulo de clássicos da dramaturgia como Shakespeare, Garcia-Lorca e Samuel Beckett, além de encenar textos de autoria própria. O grupo ainda dá continuidade a sua vocação para a formação de novos actores para o teatro cabo-verdiano.

Para a apresentação no FESTLIP, o grupo encenou um texto complexo e difícil, que se refere a vários escritores tais como James Joyce, Cervantes, Shakespeare, Jorge Luís Borges, Dostoievski dentre outros cânones da literatura ocidental. A peça trata de um escritor que é trancafiado em um castelo. Sem memória, ele não sabe como ali chegou até que um telefone toca e várias regras são passadas em um discurso polifônico em que é apresentado a ele que deverá escrever um romance para conseguir sua liberdade, entretanto, somente conseguirá atingir o objetivo se um “júri” competente considerar sua criação uma obra-prima. Para tanto, ele terá uma vasta biblioteca para consulta – pois as vozes ao telefone acusam-no de ter pouca leitura, ou, se preferir, tentar decifrar inúmeros códigos que levariam anos e anos para ter sucesso.

Angustiado, o escritor parte para a criação de seu romance, mas, logo depara-se com o drama da folha em branco, da ausência de criação. O que escrever diante de tantas obras já feitas? Ele recorre à biblioteca sem sucesso, pois, contrariando o que havia sido dito pela voz ao telefone, é possuidor de uma imensa cultura literária, conhecedor de todos os clássicos da literatura. O tempo passa, seu desespero aumenta, sem contato com o mundo exterior fechado em si próprio. Fantasmas aparecem e o atormentam, revelando o inferno da criação. O branco do papel, o vazio da criação em contraste com toda a erudição que possui e com tudo já foi escrito; pólos extremos que configuram a própria morte do romance, o seu fim como gênero literário, daí ser infestado de metalinguagem, inclusive teatrais na adaptação.

“No Inferno” fala do interminável momento de caos do escritor, da atemporalidade do bloqueio criativo, da solidão a que isso reporta, que remete o escritor a ser uma ilha, isolado em um mundo de tantas possibilidades às quais não consegue atingir.

Com um elenco impecável e afinadíssimo que explora muito bem a ironia característica de Vieira, composto por Arlindo Rocha, Elísio Leite, Fonseca Soares e pelo bárbaro Manuel Estevão, destacando o seu impressionante trabalho de voz; a música tensa e correta de Caplan Neves; iluminação de Edson Fortes, figurinos de Elisabete Gonçalves e cenografia e direção a cargo de João Branco, o GTCCPM presta uma justa e bela homenagem a Arménio Vieira ao realizar esta adaptação de “No Inferno”. Peça que deveria merecer uma temporada no Rio de Janeiro.

Fonte: www.ricardoriso.blogspot.com




"No Inferno" de Arménio Vieira em digressão

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Está confirmada uma agitada carreira nacional e internacional da nossa última produção "No Inferno" que passa pelo Brasil, para se apresentar de seguida na capital do país Praia, seguindo para Portugal e terminar esta intensa fase de participações na cidade mãe, Mindelo, integrado na programação principal do Mindelact 2009. No Brasil, a primeira apresentação terá um carácter simbólico muito grande, dado que a apresentação será feita no dia 05 de Julho, dia nacional de Cabo Verde.

O impacto do Prémio Camões atribuído ao poeta Arménio Vieira, autor da obra original, assim como o prestgio já granjeado pelo nosso grupo nas muitas participações em eventos internacionais que conta no seu historial, fazem com quem muito possivelmente esta produção não pare por aqui.




A qualidade cénica, dramatúrgica e o trabalho dos actores, desta que é a nossa 43ª Produção Teatral, foram alvo de grandes elogios na estreia ocorrida no Mindelo, onde as duas apresentações efectuadas souberam a pouco, tendo ficado muito boa gente com vontade de ver (e rever) o espectáculo. E oportunidades não vão faltar, certamente.


Então é assim, o calendário de "No Inferno" para os próximos meses:

Dias 05, 09 e 11 de Julho, apresentações no Rio de Janeiro, Brasil, integrado no Festival Internacional de Teatro em Lingua Portuguesa - FESTLIP.

Dia 17 de Julho, apresentação na Praia, no âmbito da Semana Cultural da CPLP.

Dia 04 e 05 de Setembro, em Oeiras, Portugal, no âmbito do MITO - Mostra Internacional de Teatro de Oeiras.

Dia 13 de Setembro, inserido no Programa Principal do Festival Internacional de Teatro do Mindelo, Mindelact 2009.


Fotografias: Kizó Oliveira e Omar Camilo



Peça em Imagens: No Inferno (2009)

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Peça: "No Inferno"
Ano: 2009

Fotografias de Kizó Oliveira

No Inferno: uma reacção

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"Nesta terrinha bonita di meu, os críticos se confundem ainda com mandadores de boca, mas sei que bem lá no fundo este é um defeito superficial e que este é um grande país povoado de génios e talentosos amantes da cultura que apenas não se mostram porque são anónimos por obrigação ou nem por isso. Aproveito a grande democracia de opiniões e sugestões reinante nesta aldeia para mandar uma das minhas bocas: a peça “No Inferno”, adaptação do livro “No Inferno” de Arménio Vieira, excelentemente adaptada ( por que não também dizer criada) por João Branco, que leva ao palco quatro actores de grande inteligência e de finíssimo talento, merece no mínimo uma tournée nacional para dignificar o trabalho de equipa feito pelo grupo envolvido. Isso para não dizer “ uma tournée nacional no sentido de abrir a cabeça aos mais incautos, aprofundar a prática da cultura teatral entre a classe política, estudantes e jovens empreendedores ou não, fomentar a leitura de autores nacionais e mandar a bardamerda os autores de patacos, na literatura auto financiada como da manhosa poesia do zouk Nacional”. Por isso parabéns a Elisabete Gonçalves pelo figurino, a Carla Correia pelos objectos cenográficos, a Edson Gomes pelo desenho de luz, a Caplan Neves pela música original (belíssima surpresa), a João Branco, e claro aos actores Arlindo Rocha, Elísio Leite, Fonseca Soares, Manuel Estevão todos magníficos. A Manuel Estêvão no papel principal um forte aplauso pelo trabalho de voz, pela pujante interpretação. Ao conde que nos levou aso Inferno...um obrigadinho…."

Abraão Vicente (www.alamarginal.blogspot.com)


Fotografia: Doca


Em Cartaz

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A ideia de encenar No Inferno

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Desde a primeira leitura da obra que a vontade de partir para esta aventura foi uma realidade. Por um lado, estamos a falar de uma figura maior da nossa literatura, um dos maiores poetas deste país que, possivelmente, já mereceria um outro tipo de visibilidade, condizente com o seu talento; por outro, o romance “No Inferno”, sendo uma obra fragmentária, difícil e que exige do leitor alguma cultura geral, principalmente no domínio da literatura, é ao mesmo tempo, extremamente teatral porque muitas das suas páginas estão ocupadas com diálogos muito bem elaborados, demonstrando o pleno domínio do escritor da técnica dramatúrgica, onde as falas dos personagens são quase sempre lacónicas, corrosivas, inquietantes, ou seja, teatrais.

Ora, o livro foi lançado em 1999. Só passados dez anos pegamos nele para o adaptar. A principal razão terá a ver com a complexidade estrutural da mesma, a sua dimensão intelectual e mesmo histórica, que nos fez concluir que para pegar neste texto e concretizar a sua transfusão cénica, teríamos que estar preparados. A exigência desta criação é enorme a todos os títulos: por um lado, a adaptação dramatúrgica foi resultado dum estudo e análise do romance no seu todo, para que no palco se pudesse criar uma situação “legível”, embora sujeita a múltiplas leituras; por outro, quer no que diz respeito à encenação, quer no que diz respeito ao trabalho dos actores, também essa experiência, ou melhor, maturidade, era condição sina qua non para avançarmos. Dito de forma directa, “No Inferno” é apenas adaptado agora porque só agora nos sentimentos preparados para concretizar tamanho atrevimento.

No Inferno: a encenação

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A angústia da criação. Não há maior angústia, assim como não há dor como aquela que resulta do nascimento de um novo ser humano, e sobre isso são as mulheres as melhores testemunhas. Não há parto sem dor. E com a angústia e a dor chegam os fantasmas, as vozes, as imagens e sobretudo, o peso do passado, as referências de tudo aquilo que já vimos e lemos, a memória como inimigo do novo, a balança empanturrada com todas as criações anteriores da Humanidade. Que posso eu escrever, pintar, encenar, compor, fotografar, esculpir se (quase) tudo já foi experimentado? Como posso eu preencher a folha em branco, a tela vazia ou o palco despojado de objectos, de movimentos, de vida? Sem procurar respostas, esta peça vive do que se ouve e vê – como qualquer peça de teatro, em suma. Mas quase tudo o que se ouve e muito do que se vê, tem uma forte carga simbólica, no cenário, no registo interpretativo dos actores, na música e, claro, no texto. As asas, os cacifos, o leito, as sombras, os ossos, os livros gigantes que imanam luz, as diferentes formas que assumem os fantasmas que povoam o dia-a-dia do poeta, são tudo símbolos de um estado de espírito impossível de descrever de forma racional e objectiva, porque neste Inferno da criação, o caos é um ponto de partida e será, provavelmente, o ponto de chegada. Somos todos joguetes do destino. Não há como arrumar o caos, ordená-lo sem acabar com a sua própria natureza. Então o melhor é, como diz o poeta no final, “a gente retirar-se para um lugar onde haja flores – sobretudo rosas – beber vinho e morrer.”


João Branco


No Inferno: a equipa

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Este espectáculo só teria sido possível com a conjugação de uma série de factores. Em primeiro lugar, como sempre deve acontecer no teatro, estão os actores. São eles que dão corpo, energia, suor e vida aos personagens. São eles a alma da arte cénica. São eles que colocam as suas cabeças na guilhotina a cada apresentação. E no caso particular de “No Inferno” a existência de actores disponíveis, corajosos, inteligentes, talentosos e experientes foi fundamental e fez com que a angústia da criação se transformasse no prazer redobrado da partilha colectiva, do respeito e admiração mútuas, do florescer de uma energia que foram motor e alimento desta montagem cénica. Aqui e agora, quero salientar o trabalho de Arlindo Rocha, Elísio Leite, Fonseca Soares e Manuel Estêvão. Quatro actores do melhor que existe nos palcos de Cabo Verde, juntos, compondo uma partitura cénica que dá resposta às exigências do texto original e ao génio do seu autor, o poeta Arménio Vieira. A este temos que agradecer a disponibilidade e a força dada ao longo de todo este processo, e será para nós uma suprema honra e enorme satisfação poder tê-lo sentado na plateia, para apreciar, de forma crítica, o resultado final. Do resto da equipa, gostaríamos de salientar a colaboração de Carla Correia na cenografia, os figurinos de Elisabete Gonçalves e a música original de Caplan Neves, um jovem com raro talento para a escrita e composição que não hesitou em responder ao desafio de se juntar nesta empreitada. O Edson Gomes com um desenho de luz competente, completa a equipa técnica e artística desta peça, que é a 43ª produção teatral do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português - IC.

Queremos que acima de tudo esta peça possa homenagear o autor do romance que a inspirou. Esse o primeiro e grande objectivo. Que possa ser digna da obra e do génio criativo de Arménio Vieira e que no palco se possa reconhecer algo do seu código genético enquanto poeta e escritor.

Depois de tantas peças, de tantos anos, devemos proclamar também que o teatro está morto? Não nos preocupemos com isso, por agora. Sigamos o sábio conselho do poeta que nos diz que mesmo que a suposição de que o essencial já foi escrito nos desconsole, cultivemos o nosso jardim. Deixemos o nosso espírito vaguear, livre, por alguns instantes em cada dia, para que quando a morte nos venha bater à porta, não lamentemos a nossa condição de escravos de um tempo que já passou.


João Branco


Imagem: pintura de Klee

No Inferno: o texto

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Exibe-se aqui, o mais intimamente pessoal e inconfessável dos sentimentos experimentados por uma alma criadora. Exibe-se aqui, uma sombria jornada de pés flamejantes sobre as chagas abertas na angústia da criação. Exibe-se aqui uma impossibilidade semiológica, o anseio de representar o inexistente, aquilo que se recusa a existir e oblitera a própria existência nessa recusa. O nada que reduz toda a substância ao nada, inclusive a própria substância do nada. Exibe-se aqui, a angústia da folha vazia, a angústia da substância inexistente. A angústia que emerge da inexistência daquilo que oblitera a própria existência em não existir.

Está o poeta frente a folha vazia. Esta folha onde nada se escreveu e nada revela que possa ser escrito. Esta folha vazia, simplesmente porque “falta uma vocação de escritor”, ou vazia porque “o essencial já foi escrito”, ou simplesmente vazia porque é no vazio onde tudo começa.

Está o poeta num circuito fechado sobre si próprio, numa ilha perdida num recanto de si, numa casa revestida de paredes de aço sem nenhuma presença de vida para além de si próprio (nem sequer ratos e parasitas); num inferno onde o tempo não existe.

Está o poeta ante a vanidade da acção. O que exprime não tende a um objectivo e nem reporta a um objectivo. Os seus olhos não pretendem outra face além do rosto mórbido que habita o espelho. O seu coração não pretende outro coração ou outro lugar para além desse lugar perdido e deste coração encarcerado dentro da caixa inexorável em seu peito. Não pretende ninguém, nada.

Move-se o poeta vazio e sem memória. Move-se o poeta num mundo fechado de imagens e fantasmas, um mundo intemporal, um mundo onde em tudo o que se move, se percebe a irrealidade, a ausência de sentido de toda a actividade.

Está o poeta encarcerado. O fechamento que conduz à ruptura, a fragmentação, ao caos. O caos que nasce da própria ausência da acção, da imobilidade. Nada se move nesse universo fechado. Tudo é frio e morto, o próprio tempo morreu. Tudo é o eterno instante. Tudo são sombras, tudo é vão. Tudo é angústia, tudo é hilariante, tudo é trágico, tudo é cómico, tudo é nada (ou nada é tudo).

Move-se (?) o poeta no inferno…

Caplan Neves



Imagem: pintura de Magritte



No Inferno: os cartazes

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No Inferno” exprime um sentimento único e profundamente pessoal, talvez o mais intimamente pessoal e inconfessável dos sentimentos experimentados por uma alma criadora. No entanto o que Arménio Vieira consegue expressar nesta obra é um sentimento que fala profundamente, tão profundamente que fere, que passeia com pés em brasa sobre as chagas abertas na angústia da criação.




Estreia dia 28 de Março!



43ª Produção do Grupo de Teatro do CCP - IC


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Vem ai...






Sobre No Inferno

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Um Olhar Sobre “No Inferno”
Ou sobre a angústia da folha vazia

Uma análise de Caplan Neves 


A substância da arte é a comunicabilidade. Que o ser “se liberte dessas paredes e ganhe a ilusão de estar livre.” Caso contrário perde-se a via e o criador. Elevar a angústia mais pessoal, ao mais profundamente partilhado, eis um empreendimento como nenhum outro. Mas que ponte inconcebível se estenderá entre a comunicabilidade e a expressão genuína de um mundo intransmissível? Palavras? “Palavras, palavras, palavras…” Herdamos as palavras e o modo de as ordenar. Como libertar-se desta “jaula da linguagem” de que nos falava Wittgenstein? 

No Inferno” exprime um sentimento único e profundamente pessoal, talvez o mais intimamente pessoal e inconfessável dos sentimentos experimentados por uma alma criadora. No entanto o que Arménio Vieira consegue expressar nesta obra é um sentimento que fala profundamente, tão profundamente que fere, que passeia com pés em brasa sobre as chagas abertas na angústia da criação. 

Para aquele que jamais experimentou as atrozes e dilacerantes chamas deste tormento criativo, este é um livro impossível. Uma impossibilidade semiológica, porque pretende representar aquilo que não existe. Aquilo que se recusa a existir e oblitera a própria existência nessa recusa. É o nada que reduz toda a substância ao nada, inclusive a própria substância do nada. Só quem sustenta dentro de si este “inferno” pode reconhecer a expressão tácita deste sentimento. Doutro modo, apenas estrangeiros, ou melhor, turistas nessa angústia da folha vazia, qual o ateu numa experiência religiosa ou o religioso num mundo sem deuses. A angústia da folha vazia, eis o inferno. Ou então a angústia da substância inexistente. A angústia que emerge da inexistência daquilo que oblitera a própria existência em não existir. E o pior, ela não existe e se recusa a existir. 

Observemos esta “amarga” citação do raptor do nosso herói Robinson: “Escrevo para suportar o mundo, que incessantemente se desintegra no nada (G. Kunert)”. Essa frase exprime em poucas palavras, o quão atrozmente angustiante pode ser uma folha vazia. Esta folha onde nada se escreveu e nada revela que possa ser escrito. Esta folha vazia, simplesmente porque “falta uma vocação de escritor”, ou vazia porque “o essencial já foi escrito”, como nos diz Arménio Vieira. Ou simplesmente vazia porque é no vazio onde tudo começa. Porque este romance que fere os olhos é função deste vazio, desta angústia da folha vazia.

"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir.”, diz-nos Bernardo Soares no Livro do Desassossego, uma das recomendações do raptor de Robinson. “O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto." Sim, como diz Arménio Vieira em sua Nota Prévia “cultivemos o nosso jardim”. Cultivemos o nosso jardim porque é o único jardim onde poderemos jamais penetrar, não importa o quão constringente for a nossa “sobrecarga mental de informações livrescas”. O “nosso jardim” deve valer por si mesmo. Não para provar alguma coisa, não para se ser “original”, nem sequer para se libertar. Ela surge naturalmente no seio e para além daquilo que percebemos e sentimos. É um reflexo natural daquilo que nós somos e, neste sentido, único e irrepetível. 

Como nos diz Pessoa pela voz de Soares, o que se confessa não tem importância, porque nada tem importância. Pelo menos, não num circuito fechado sobre si próprio, não numa ilha, não numa casa revestida de paredes de aço sem nenhuma presença de vida para além de si próprio (nem sequer ratos e parasitas); não num inferno onde o tempo não existe. 

Nesta ilha fechada o que se confessa não tem importância porque não se pretende comunicar. O que se exprime não tende à um objectivo e nem reporta à um objectivo: “Quem é que ele desejava ver? Ninguém. De quem ou de que lugar podia ele sentir saudades? De ninguém, de nada”. Robinson é um ser vazio e sem memória mas que conserva todas as suas faculdades cognitivas e reflexivas. Mas eis um trágico paradoxo: ele “é capaz de observar, analisar, apreender e chegar a conclusões”, mas só o pode fazer num plano estritamente abstracto, porque falta substancialidade e realidade à aquilo que observa e analisa. É um mundo fechado de imagens e fantasmas, um mundo intemporal, um mundo onde em tudo o que se move, se percebe a irrealidade, a ausência de sentido de toda a actividade. “O homem não é nada” diz-nos Robinson declamando Tzara à uma plateia imaginária, “Medida pela escala da eternidade, todas a acção é vã”. 

O fechamento conduz necessariamente à ruptura, a fragmentação, ao caos. Um caos que nasce da própria ausência da acção, da imobilidade. Nada se move num universo fechado tudo é frio e morto, o próprio tempo morreu. Se não há tempo não há progresso. Tudo é um eterno instante. Eis porque Robinson não consegue escrever o romance que lhe fora proposto como condição para a sua liberdade: ele não o pode fazer. Eis porque ele teimava em escrever histórias curtas: Se a vida é um caos, o romance é uma impossibilidade. Se o tempo é um eterno instante, ou um conjunto de eternos instantes, mais vale escrever textos curtos, o mais curto quanto possível, de preferência, poesia. 

Mas o caos que encontramos nas páginas de “No Inferno” tem outro sentido. O seu objecto não é o mundo ou a existência, mas a própria escrita. Ela não se relaciona com o personagem, mas com o escritor. O objectivo do caos é expresso desinibidamente. 

“Não sei onde estou, nem tenho a certeza de ser gente ou animal ou coisa.”, diz Robinson após, convicto do seu fracasso, atirar ao cesto de papeis o seu primeiro texto, “Estranho ao mundo, indiferente à vida, perdido nalgum ponto do universo, prisioneiro por dentro e por fora, porventura louco, ou talvez nem isso. Sem substancia sem forma, nem atributos. Em suma não existo, nem hipótese sou de coisa alguma”. Mas ao terminar este lindo e profundo monólogo, somos logo esclarecidos que não se trata exactamente da expressão do sentimento da sua condição no mundo, mas provavelmente da “reminiscência de algo que tivesse lido há muito tempo”. Não se trata aqui de um problema existencial, mas simplesmente de um problema relacionado a produção literária. 

O absurdo não se relaciona com a existência em si, mas com o acto de escrever. Ele não tenta disfarçar o absurdo, ou pressupor que exista algo transcendental por trás deste absurdo, ou que o absurdo do que é relatado seja uma descrição nua e crua do mundo ou da vida real. O narrador tem consciência do absurdo daquilo que narra. Ele expressa-o claramente logo nas páginas iniciais, dizendo “Mas onde é que há lógica na história que estamos ouvindo?” e dá-nos depois uma esperança, “Haverá uma, certamente que há, mas não nos compete achá-la agora”. Mas ao aproximar-se do fim volta a esclarecer-nos que “ [esta ficção] é maluca, não tem pés nem cabeça.” E aconselha-nos à fechar o livro, a não ser que estejamos “vacinados” contra o absurdo.

Qual é então o sentido deste absurdo? Ele pretende calar-se por escrito. Mas este “calar-se” em Arménio Vieira não se trata da clássica literatura do silêncio, longe disto. Aliás está claro o que ele pensa do silêncio: “[…] o silêncio é uma coisa que sempre moeu o juízo daqueles que tentaram convertê-la em coisas que não fossem ela mesma, isto é, a palavra silêncio.” Mais a frente diz-nos: “Semelhante ao nada, o silêncio é apenas um lapso de tempo preenchido por uma coisa que deixou de ser.” 

Entramos aqui num impasse. Ele não pretende dizer nada, ele quer apenas calar-se, mas muito menos pretende uma tradução do silêncio. Ele pretende situar-se num espaço entre o calar-se e o recusar do silêncio, então ele cita. Ele cita porque não tem nada para dizer. Repete de cor e salteado o essencial da literatura ocidental (e não só), porque acredita que o essencial já foi dito. Só lhe resta venerar o que já foi feito. Eis o sentido do “pavor místico” que invade Robinson quando lhe ocorre usar os livros caso lhe faltasse papel higiénico: a único coisa que faz sentido preencher a sua folha vazia, são citações. 

Então ele mergulha-nos propositadamente num universo absurdo do qual só a literatura escapa. Porque ele já não tem olhos, ou não acredita nos seus olhos. Ele obliterou o seu olhar na suposição que o essencial já foi visto. Só lhe resta olhar o mundo com os olhos daqueles que viram já o mundo. Eis o sentido deste angustiante vazio que povoa as folhas de “No Inferno”: “Nas estantes da sua memória só havia espaço para livros, apenas isso”. 

“Só escreve quem lê.” diz o raptor de Robinson. Ele é só leituras. Está constringido por essa “sobrecarga mental de informações livrescas”. Quando se observa com olhos alheios traz-se também o olhar alheio e consequentemente um mundo alheio a nós. A escrita nasce, repito, naturalmente, no seio e para além daquilo que percebemos e sentimos. Como escrever se o olhar não nos pertence, se não existe uma percepção genuína, um sentimento genuíno? 

O método está no entanto achado. Um eunuco (perceba-se, um ser castrado e incapaz de procriar) pergunta a Robinson se pode dizer um poema. “Um poeta eunuco, força! Recita o poema.” Incentiva-o Robinson. Mas quando o eunuco o faz ele apercebe-se “Conheço, é um verso irlandês, mas atenção: acrescentaste-lhe umas palavras.” “Fiz mal?”, pergunta o eunuco. “Fizeste muito bem.”, diz Robinson. Eis que somos esclarecidos. Talvez demasiadamente esclarecidos. Não há nada a dizer se o olhar não nos pertence. Só resta papaguear citações e acrescentar-lhe algumas palavras. 

Todo o enredo deste… bom, chamemos-lhe romance, é o próprio acto de criação de si mesmo. “Desde o primeiro livro, Poemas, de 1981, passando por O Eleito do Sol, de 1989, até esse seu No Inferno, Arménio Vieira transita por dentro da escrita.”, diz-nos Clara Seabra. Mas há mais. “No Inferno” transita por dentro de si próprio. Um movimento paradoxal de uma obra que descreve o seu próprio emergir, sendo a substância de si próprio. 

Os paralelismos são óbvios. O personagem e o autor encontram no mesmo “assado”: o de escrever um romance quando não há nada para escrever. Quer o autor quer a personagem limitam-se à um amontoar de textos dispersos e de citações dispersas. Estão ambos constringidos pela sua “sobrecarga mental de informações livrescas”. E, por fim, como se liberta o personagem? “Tropeçando, rolou pelos degraus abaixo e zás! Encontrou-se no País das Maravilhas […]”. E como termina a obra? “Eis que começa o dia a despontar. Interrompo aqui a minha história”. O dia desponta, ele toma o banho, veste-se e como o resto do rebanho, penetra pelo País das Maravilhas, onde as pessoas deslocam apressadas, sem saberem que “é preferível a gente retirar-se para um lugar onde haja flores (sobretudo rosas), beber vinho e… morrer.” 

Donde vem este pessimismo de criador, supondo que nos dias que correm é necessário um razão para se ser pessimista? Vejamos, a folha vazia precisa ser preenchida, mas estamos constringidos pela suposição de que o essencial já foi escrito. “Que fazer então? Continuar a escrever romances, fazendo de conta que ninguém os escreveu antes de nós?”, indaga-se Arménio Vieira. Chegamos a pensar que ele pretende fazer humor. Só não desatamos as gargalhadas porque está claro o que realmente é. Mostra-nos a tocante e abatida feição de um grande escritor que qual Édipo, arrancou os próprios olhos. Mas como teve ele coragem de ferir assim os seus olhos? Que divindade a isso lhe levou? Perguntamos nós, corifeus dessa angústia que nos é alheia. 

Pois bem, imaginemos-lhe qual um profeta que se guia por um enorme livro de profecias no fundo de um poço, onde todos os profetas, seus antepassados, foram beber a sua inspiração. Chegado demasiado tarde, tudo já fora anunciado, já não existem mais revelações a serem feitas. Com o coração apertado, procura em vão entre as paginas desse livro decrépito uma palavra que ainda ninguém prenunciou. Perseguido pelo desejo de revelar uma boa nova, mas consciente de que tudo já foi dito. Só lhe resta arrancar os próprios olhos e resignar-se a olhar o mundo com os olhos dos profetas mortos. 

Mas podemos ainda indagar como terá surgido em Arménio Vieira essa estranha cadeia de raciocínio, como terá o olhar que gerou “O Eleito do Sol”, acabado por declarar a inutilidade do seu olhar.

Antes de mais é importante ressaltar que, como diz Clara Seabra, ele é um escritor “inconcebível fora de uma literatura-metalinguagem. Significa isto que o seu objecto não é a expressão de emoções humanas em si, mas a própria expressão, ou melhor, o próprio acto de exprimir. Assim, ele se exclui do contacto directo com as emoções e explora as sombras dessas emoções. Isto é particularmente visível nesta obra. 

De resto, porque Robinson assassina reiteradamente Romeu e Julieta. Robinson ama Julieta mas Julieta não ama Robinson. “Porque é que os matou?”, perguntou Clint. “Porque é o meu destino”, respondeu Robinson. Pois! Robinson não foi feito para o amor. Ninguém pode amar preso dentro de uma ilha e sem memória. Mas não é o amor que ele busca, assim como não é a Julieta que ele ama. O amor não existe, assim como Julieta não existe. 

“Aquilo a que uma longa tradição – mais literária do que reflexiva – se habituou a traduzir pela palavra amor, talvez não passe de uma mitificação”. Ou então, “Se Dante, em vez de um modelo platónico, tivesse reflectido sobre a mulher que Beatriz realmente era, talvez não lhe houvesse dedicado um só dos seus pensamentos, quanto mais um dos maiores poemas escritos por uma alma apaixonada. 

A literatura-metalinguagem move-se por entre as sombras do sentir. E as sombras são fixas tal como o olho que os observa fixamente. É uma experiência de imobilidade. Um ser sem memória de objectos e emoções reais não compreende o tempo. Não compreende que nada está fixo, nem o objecto nem o observador, que o acto de observar é um acto de liberdade, de selecção. Que o olhar não existe a priori, que cada um deverá construir o seu próprio olhar. Pois o vazio surge porque cessamos de olhar com os nossos próprios olhos. Que quando olhamos com os nossos próprios olhos, percebemos como o nosso olhar é único e irrepetível, assim como o é a sua expressão. Que está tudo por dizer, porque tudo espera ser visto. 

Onde reside esta negação do olhar? Será que foi a sua “literatura-metalinguagem” que fechada sobre si mesma, sem injecção de emoções reais já não podia suportar o próprio vácuo, o olhar cansado de olhar para o nada e resolveu declarar a inutilidade do olhar? Talvez a questão seja muito mais simples, até mesmo porquê, existe emoção real na “literatura-metalinguagem”. Existe efectivamente uma emoção da própria escrita. O que mudou então? 

“[…] começara a viajar pelos livros, os quais, nessa fase, lia por prazer, pelo que se o acto de ler é um pecado, eu andava mais próximo da gula que da vaidade”, pode-se ler algures. O mesmo acontece com a escrita. A escrita pode igualmente nascer da “gula” ou da “vaidade”. A escrita pela “gula” tem como único objectivo o prazer. É neste sentido um reflexo natural do olhar que criamos para captar um mundo que se move e se realiza na medida desse mesmo olhar. O que “desconsola”, não é a suposição de que o “essencial já foi escrito. O que “desconsola” é a perda do olhar. O vazio não está nas coisas, mas em olhar as coisas com olhos de outrem. 

Nada mais tenho a dizer de Arménio Vieira para além de que é um dos maiores escritores cabo-verdianos. Quanto ao “No Inferno”, talvez fosse um problema estrutural da própria obra. Como um ser que só vive respirando um veneno que inevitavelmente o matará. A angústia da folha vazia, sendo a força motriz desta obra, foi o que o conduziu a sua perdição. De resto, o papaguear de citações e o esforço propositado de nos emergir num absurdo tendencioso, não escondeu o génio de Arménio Vieira que esperemos, recupere o olhar e a voz. Porque quando recuperamos o olhar deparamos com um horizonte infinito de espaços vazios a nossa frente, a espera que lhe revelemos o sentido. 

Em estreia: No Inferno

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Cá está aquela que será a 43ª Produção Teatral do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo:

"No Inferno"
Uma tragicomédia de Arménio Vieira




Ficha Artística


Adaptação
João Branco

Encenação, Cenografia e Direcção Artística
João Branco

Interpretação
Arlindo Rocha
Elísio Leite
Fonseca Soares
Manuel Estevão

Objectos Cenográficos
Carla Correia

Figurinos
Elisabete Gonçalves

Música Original
Caplan Neves

Desenho de Luz
Edson Fortes


Uma produção do Centro Cultural Português - IC / Pólo do Mindelo


Estreia prevista para o próximo dia 28 de Março, no Centro Cultural do Mindelo