Mostrar mensagens com a etiqueta O Doido e a Morte. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta O Doido e a Morte. Mostrar todas as mensagens

Crítica de «O Doido e a Morte»

|

Niilismo cômico

Crítica da peça «O doido e a morte», que integrou o FESTLIP
De Humberto Giancristofaro

A trama da peça O Doido e a Morte, texto de Raul Brandão encenado pelo Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, de Cabo Verde, parece fácil de ser descrita: um doido entra no gabinete do governador com uma bomba. O modo como os personagens lidam com essa situação revela uma sátira cheia de espirituosidade e dotada de um estilo bem humorado de ver a vida através da morte.

Aos poucos, três elementos se revelam e se mostram relacionados sob duas forças, dois movimentos distintos. O primeiro elemento é composto por dois artifícios: uma grande tela branca ao fundo do cenário, que assume cores marcantes com a luz e que vai acompanhando as mudanças de tons do espetáculo; junto com efeitos sonoros que dão máxima expressão a pequenos detalhes; essa sonoplastia ressalta especialmente os movimentos mímicos. A tela não é bem um plano de fundo: os poucos objetos que compõem o cenário são transparentes ou vazados, de forma a sempre incorporar a cor que irradia de trás e que se torna dominante na cena. Essa cor refletida ajuda a compor o fundo da história, como se retratasse o que está por trás de tudo o que se passa, além de exercer certa influência no momento da cena. Junto com a história não contada da vida de cada personagem, ela vai compor um elemento que se prende a marcas do passado, e é esse plano que contextualiza subjetivamente toda a história.

O segundo elemento são os personagens. Não há nenhuma relação social entre os dois personagens principais da peça, o Governador e o doido Sr. Milhões, mas eles são figuras acopladas, chegam a se declarar almas irmãs, fato que é importante para entender a conexão entre eles. Essa irmandade está na similaridade entre seres opostos. A ligação existe por que esses personagens sugerem apenas intensidades diferentes de uma mesma coisa: são personalidades que fogem da representação e do comum. Um quer ser um gênio e o outro quer ser um doido. O papel de ambos parece constantemente se inverter: o doido racionaliza sua descoberta filosófica e o esperto se desespera e endoidece de medo.

O terceiro elemento é o lugar da ação. O espaço da cena se resume ao gabinete do Governador, os personagens estão presos lá dentro, circunscritos a uma realidade momentânea e fatídica. Porém, este gabinete guarda toda a vida dos personagens, é nele que o Governador passa o seu dia, lendo, jogando golfe e escrevendo suas peças de teatro.

A bomba, guardada numa caixa, se mantém intacta, mas detona uma tensão entre os três elementos citados. Ela é uma força que vem de fora e atinge os personagens, forçando-os a reagir. Com a morte como única saída, todos os três elementos da peça ganham intensidade. A relação entre eles, forçada pela presença da bomba, gera basicamente dois movimentos. Primeiramente, um movimento centrípeto, no qual a sua vida e o conforto do seu gabinete parecem se desmoronar e ruir. Por um momento se descobre a futilidade e os desperdícios vividos - um peso que esmaga os personagens. O outro movimento, centrífugo, surge de dentro deles, do cárcere pessoal, e impele para a fuga. Qualquer saída é válida, cada um a seu modo se contorce para alcançar a sua. A porta do gabinete não existe no cenário e é sempre atravessada com gestos mímicos de abrir e fechar, por isso parece não ser uma opção real de fuga. O governador, por fim, trai todos os seus princípios morais para sair dali, chega a trair a si mesmo, entregando-se para seu único confessor possível, o doido, como grande mentiroso; enquanto o intransigente Sr. Milhões só vê uma forma de completar o ciclo niilista: explodir-se e desintegrar-se para que sua poeira seja dissipada pelo cosmos.

O destino dos personagens já parece estar indicado desde o início pelo uso de máscaras: elas apontam para o desfigurado, para aquilo que não pode mais expressar sentidos pelo canal da comunicação visual. A impressão que a peça nos traz aos poucos vai sendo sentida, não de forma cognitiva, mas pela intensidade sensorial e de tensão que ela nos causa. Alguns recursos cômicos explorados pelo diretor João Branco - como os movimentos em câmera lenta ou acelerada, ou o momento em que o Governador não compreende os devaneios filosóficos do Sr. Milhões e este rebobina suas falas e ações para repeti-las - compõem uma série de movimentos anômalos que desloca a narrativa para uma situação imaginária, que não precisa obedecer ao real, e pode assim enfatizar ou mostrar novamente o que não foi visto. O Sr. Milhões nos dá essa dica na fala: "Os livros, as peças, a arte, enfim, só valem pelo que sugerem. O que está lá em regra não presta para nada; o que cada um de nós constrói sobre a linha, a cor e o som é que é verdadeiramente superior." Ele parece nos dizer que o invisível, sugerido nas relações de forças da peça, traz à tona não um processo reflexivo, mas criativo. Essa é uma outra resposta possível para o niilismo que se coloca na peça: diante do vazio existencial, é possível preenchê-lo, é possível criar, é possível construir a diferença a partir do desfigurado, sem fugir da infinitude do tempo, mas indo em busca do tempo perdido.

De partida para mais uma digressão

|
O nosso grupo de teatro prepara-se para mais uma digressão internacional, desta feita, para participar, no final de Agosto, em dois importantes festivais internacionais, em Portugal, no Fundão e em Lisboa, com a peça «O Doido e a Morte».



A primeira dessas participação é no Festival TeatroAgosto, que se realiza ao ar livre e privilegia a linguagem da encenação, o gesto, o movimento e a acção enquanto expressão autónoma. A programação dá especial relevo a propostas que se inscrevam nas vertentes do Teatro Tradicional do Ocidente (onde a Commedia dell´Arte, o mimo, a prática dos contadores de histórias, a pantomima ou o Teatro de Feira são alguns dos seus principais representantes) ou propõem às Companhias rescreverem as suas encenações com vista a adaptarem a comunicação para um público mais amplo e mais disperso e em condições adversas e menos organizadas do que a rigidez arquitectónica de uma sala de espectáculos.

No Fundão, a nossa companhia apresentará o espectáculo no dia 24 de Agosto.

De seguida, viajará para Lisboa, para participar na VII edição do Festival Internacional de Máscaras e Comediantes com um formato de transição - um momento de reflexão e renovação a pensar num crescimento futuro. A abertura aos PALOP - países da comunidade lusófona - é uma das vertentes inovadoras desta edição, esforço que se pensa manter em posteriores edições, convidando sempre uma companhia de um destes países. Este ano a companhia convidada é, precisamente, o Grupo de Teatro do Centro Cultural Português - IC, com “O Doido e A Morte” de Raul Brandão.

Em Lisboa, actuaremos no ambiente mágico do Castelo de S. Jorge, no dia 25 de Agosto.




Lembramos que a aposta destes dois eventos neste produção está relacionada com o seu carácter estético e artístico: trabalho de máscaras e uma encenação inovadora. Esperemos que este possa vir a ser mais um sucesso do grupo além fronteiras.

Com esta, será a 21ª vez que o GTCCPM sai de Cabo Verde para se apresentar além fronteiras, o que faz do nosso grupo o mais internacional da história do teatro cabo-verdiano.


Actualidade: GTCCPM em Lisboa

|



É oficial!

O Grupo de Teatro do Centro Cultural Português - IC, vai estar presente na 6ª Edição do Festival Internacional de Máscaras e Comediantes, que terá lugar no mês de Agosto, em Lisboa, com a peça «O Doido e a Morte».

A apresentação decorrerá no dia 25 de Agosto, no Castelo de S. Jorge.



A 6ª edição do FIMC vai ter lugar como já vai sendo hábito de há dois anos atrás no espaço ao ar livre do Castelejo, no Castelo de S. Jorge em Lisboa e no Museu da Marioneta (Antigo Convento das Bernardas) também em Lisboa. Este dois espaços carismáticos da cidade de Lisboa adaptam-se realisticamente ao espírito do Festival que pretende mostrar, anualmente, o que de melhor se faz a nível internacional no domínio do Teatro de Máscaras e em particular na estética da Commedia dell`Arte. Esta 6ª edição contará com a presença de seis companhias internacionais, vindas da Europa (Itália, Espanha e França) e também dos países de língua lusófona (Cabo Verde, Brasil). A representação nacional será assegurada pela companhia anfitriã, que apresentará dois espectáculos e também por outras companhias nacionais trabalhando na mesma área. O Festival conta ainda com actividades complementares como: uma exposição de máscaras de Commedia dell`Arte, um estágio de formação para actores e conferências de especialistas sobre a matéria.

Este Festival insere-se já no panorama habitual das Festas de Lisboa e conta abranger um número de espectadores na ordem das 180 pessoas por sessão, com espectáculos de quarta a sábado, num total de 12 sessões, para além do público previsto para as actividades complementares (exposição de máscaras, estágio de formação de actores e conferências).



Proscénio: O Doido e a Morte

|
Cartaz da peça "O Doido e a Morte"
(37ª Produção Teatral)




Ano: 2006
Desenho: Elisabete Gonçalves
Design Gráfico: Neu Lopes

Os nossos actores IX

|


@ «O Doido e a Morte», 2006, foto de João Barbosa

Paulo Santos

Idade: 28 anos
Signo: balança

Peças em que participou como actor:

«Mar Alto» – 2005
«SoFamília» - 2005
«Auto da Compadecida» - 2005
«O Doido e a Morte» – 2006



Se tiver algo a dizer sobre este nosso actor, não hesite em deixar o seu comentário

Peças em Imagens: Doido e a Morte II (2006)

|



@ fotos de João Barbosa

As máscaras e as sombras, na nossa última produção teatral.

Crítica Teatral: O Doido e a Morte

|


O Grotesco nos Palcos da Praia
Por Micaela Barbosa
(cortesia do jornal A Semana)


Um poderoso desmascarado e um louco que desmascara, algo nos estranha nesta premissa e mostra a relatividade do homem, a relatividade das relações sociais e humanas. E é também de relativismo que nos fala, dum relativismo constrangedor, caótico, e desconfortável para quem procura um «assento confortável». È o relativismo do poder social, o relativismo do poder criativo, o relativismo do poder familiar, o relativismo do tempo.

Falamos concerteza da peça O Doido e a Morte, do português Raul Brandão, com encenação de João Branco, apresentada pelo grupo de teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, nos palcos da cidade da Praia no último fim-de-semana.

O espectáculo trouxe à Praia as questões existenciais tão pouco presentes no panorama teatral desta ilha. Por momentos temos o privilégio de abandonar o engajamento tradicional tão comum por estas bandas para vermos perante os nossos olhos as questões de todos nós, homens e mulheres, nascidos a norte ou a sul.

Por duas noites a cidade da Praia teve o privilégio de questionar a vida, de questionar a morte, e sobretudo, de questionar a subjectividade destas duas faces do homem. E se a morte foi o motivo, o argumento para a criação dum universo de ficção na vida do Governador, foi ainda pelo trabalho ficcional de João Branco que pudemos ver tão eficazmente este desmontar do paradigma vida/morte. João, como aliás é sabido, mais uma vez foi mestre na actualização do texto nas tábuas. O encenador respeitou o texto na integra do autor português, unicamente inseriu no inicio do espectáculo algumas deixas que remetem para um contextualizar espacial da cena e ainda um extracto dum texto alusivo à realidade teatral, que muito inteligentemente deixou em aberto a sua justificação, remetendo para quem vê, a sua actualização a Cabo Verde ou ainda a uma questão universal do fenómeno teatral. De notar que JB usou na peça aquelas últimas palavras do texto, que Raul Brandão desejou, as tão fortes palavras que «ofendem a decência dos ouvidos das senhores», e que tão eficazmente rematam o drama.

O espectáculo conquistou o público desde o seu início com tão inusitado abrir da ficção.

Na hora marcada abrem-se as portas, o público entra e depara-se já com a cena instalada, não há mais lugar para fuga. Já é cúmplice. Nos momentos a seguir vive-se teatro na sala do CCP, teatro na verdadeira e pura acepção do termo, vemos nitidamente os actores ao lado das personagens, vemos nitidamente o espaço e tempo de ficção ao lado do tempo real. E só conseguimos ver isso confortavelmente porque no palco representa-se, «faz-se de conta» duma maneira tão maravilhosa que não nos incomoda nada ver os actores no palco mesmo fora da ficção, aliás a dado momento eles são invisíveis para nós, já ninguém acredita que eles lá estão. É isto que é o teatro, convencer o espectador deste faz-de-conta, torná-lo cúmplice.

A encenação fazendo jus a tão simbólica e grotesca dramaturgia, apresenta-nos uma estética bastante grotesca e algo caricaturada.

O cenário simples, algo estranho (encontramos uma cenografia do mobiliário muito atemporal ao lado de alguns adereços bem marcantes temporalmente) é por si mesmo de um estranhamento interessante pelo grotesco e híbrido que apresenta, obviamente eficaz. Neste jogo combinatório situam-se também os figurinos. Mas é importante ressalvar que nestas duas questões algo salta à vista do espectador: o carácter sóbrio e convencional - nada está em exagero e tudo é obviamente de ficção. O uso da máscara vem assim compor o conjunto fechando com chave de ouro a teatralidade plástica que se procura nesta peça e sublinhando o conteúdo grotesco do tema. Foi notório o trabalho prévio sobre a técnica da máscara na performance dos actores não deixando no entanto de ser notado algumas dificuldades a nível da visibilidade e que por vezes chamava à atenção do espectador atento. Mas é interessante concluir que no meio de tanto absurdo, nem isso foi incómodo na peça. Assim como a porta do escritório do governador que por várias vezes os actores esqueciam da sua existência.
Percebe-se perfeitamente que este espectáculo teve um período considerável de ensaios, de produção e dedicação, pelo trabalho profissional ao nível da performance dos actores de marcante teatralidade (segundo o encenador, a teatralidade é o pilar desta encenação), pela precisão com que foram criadas e operadas a luz e a sonoplastia, assim como a necessária e interessante realização dum texto programático, que trouxe até ao público a consciência de produto maduro, acabado.

A sala estava composta de público em ambos os dias de apresentação, mas estranhamente sentiu-se a ausência dos fazedores de teatro destas bandas, sentiu-se a ausência de reflexão tão interessante naquele tempo que procede o espectáculo, no tempo das conversas de átrio. Este espectáculo estava enquadrado na actividade Março - Mês do Teatro, que para além de ser uma simples agenda de espectáculos, deverá ser concerteza um espaço e um tempo de cruzamento de estéticas, de experiências, tão necessárias para o enriquecimento do nosso teatro. O Março - Mês de Teatro continua no próximo dia 23 com a apresentação da peça O Último Desejo, pelo grupo Cena Aberta, pelas 19h no Centro Cultural Português da Praia.

Peças em Imagens: O Doido e a Morte (2006)

|



@ Fotos de João Barbosa

Veja as imagens & logo de seguida ouça os depoimentos!

"O Doido e a Morte" - Depoimentos

|
Ouça comentários de Bento Oliveira (cenógrafo), João Branco (encenador), Matilde Dias (jornalista cultural), Tambla (documentarista), Paulo Santos e Luis Miguel Morais (actores protagonistas da peça), sobre " O Doido e a Morte," após a apresentação em Mindelo.

::
Bento Oliveira
::
João Branco
:: Matilde Dias
:: Tambla
::
Paulo Santos
::
Luís Miguel Morais (Lulu)


Um agradecimento especial ao Gilson Silva e à Rádio Nova.

Doido e a Morte na cidade da Praia - dias 17 e 18 de Março (20:30 horas)

|


Por enquanto que não chegamos na Praia, leiam o texto da Matilde Dias sobre a peça.
Impugnar pode ser sinónimo de explodir?

Numa altura em que muita gente equaciona o equilíbrio de tal questão, é de se olhar, com merecida atenção, a peça O Doido e a Morte, do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo (GTCCPM). O texto original do dramaturgo português Raul Brandão cai que nem uma luva nesta época de impugnações e/ou enganações.

Um milionário resolve instalar uma bomba relógio no escritório de um político mamador, preguiçoso e arrogante. Mais do que um protesto (também sinónimo de impugnação), é um acto de loucura contra uma forma de fazer política, em que um cargo político é visto como via de progressão na conta bancária e no status quo.

A peça fascinou o encenador João Branco, pela sua actualidade e pelas características do texto, seco e implacável, segundo palavras do mesmo. Depois do click inicial, e após um par de meses de montagem e ensaios, a 37ª produção desta companhia estreou em Fevereiro, no pátio do Centro Cultural do Mindelo (CCM). No pátio, com capacidade de cerca de 50 cadeiras, e não no palco convencional, com cerca de 200 lugares – e sem falar em outras estruturas, como som e luz.

Questionado sobre esta opção, Branco diz que não é de foro artístico e sim financeiro. E pouca gente teve a oportunidade de assistir ao espectáculo, dado que no pátio há lugar para cerca de 50 cadeiras, mais coisa, menos coisa. Mesmo assim, funcionou bem, particularmente o facto de os actores nunca saírem realmente de cena, ficando sentados ao lado do público. E há que registar igualmente o jogo de luzes que projecta imagens distorcidas dos personagens na parede, num espectáculo expressionista, onde os personagens parecem caricaturas, muitas vezes beirando o grotesco.

Impugnar pode ser sinónimo de explodir? Pode ser que sim, se a impugnação tiver como mote a sede pelo poder. E não, se for motivado por questionamentos válidos na forma de se fazer e estar na política e no poder.

Quem está na capital, pode assistir a esta farsa existencial no Centro Cultural Português da Praia, neste Março Mês do Teatro.

Matilde Dias

O Doido e a Morte: uma crítica

|

@ «O Doido e a Morte» 2006 / foto de João Barbosa

Estará a paz e a boa vida do Governador prestes a acabar?
Esta é a história de um Governador Civil que finge trabalhar, enquanto se diverte criticando artigos dos jornais e escrevendo peças de teatro sem sucesso, recorrendo mesmo ao plágio, enquanto saboreia um bom café e aprecia um charuto caro.
Sua vida dá uma volta enorme quando recebe no seu gabinete a visita dum conhecido milionário da praça. O homem traz debaixo do braço nada mais nada menos que a morte vestida de bomba, dentro duma caixa de madeira. Accionado já o engenho, nada mais há a fazer, pois tudo irá pelos ares, não poupando ninguém num raio enorme de quilómetros.
Perante tal situação, não são só os personagens da trama que se encontram sob pressão. O próprio espectador sente aquele (como disse Leo Bassi) culo streto, ficando pregado à peça do início ao fim. Um desenvolvimento feliz que desagua num final mais ou menos surpreendente.
Essa é a 37ª produção (não comparem isso com nada no teatro mindelense) do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo/ICA que celebra agora mais um aniversário. E vale a pena dizer que é mais uma produção bastante criativa e de óptima qualidade, tal como as 36 anteriores. Uma carreira que serve de exemplo para qualquer grupo de teatro de São Vicente.
Desta vez o grupo criou um espaço alternativo para o espectáculo – o pátio do Centro Cultural do Mindelo – não perdendo contudo um sempre activo e interessado público. Uma peça com uma composição plástica simples mas concisa que, com certeza, conseguiu seus objectivos. Os figurinos estão à medida das personagens e do desenho de luz que implementa um ambiente mais sinistro à trama, principalmente nas cenas dominadas pelo milionário louco (o doido), inteligentemente interpretado por Paulo Santos. A banda sonora da peça, em que alguns trechos/sons foram produzidos e montados por elementos do grupo, também encaixa perfeitamente e não cria tédio nem enjoa. Num tema que sempre será actual, os actores encantam, utilizando uma colocação de voz perfeita, acompanhando uma expressão corporal soberba. Mas o mais lindo da peça é a utilização de meias-máscaras que traçam perfeitamente o perfil de cada personagem.
Mesmo que a peça tenha tido sucesso no espaço alternativo, penso que é perfeitamente adaptável para o palco do auditório do CCM. Espero ver esta peça, mais uma vez no referido auditório com um vasto público. Uma experiência que não significa que o espaço seja melhor ou pior aliás, o sucesso da peça no pátio do CCM fala por si.
Neu Lopes (sarron.com)

"O Doido e a Morte" em estreia

|


Ao iniciar a pesquisa para escrever o presente texto, descobri algo de surpreendente: o autor desta peça nasceu e morreu precisamente no mesmo ano do grande poeta e escritor cabo-verdiano Eugénio Tavares, homenageado pelo nosso grupo de teatro há precisamente um ano. Não passa de uma coincidência, mas fiquei radiante com a descoberta, vá-se lá saber porquê!

Quando li a peça pela primeira vez, fiquei muito interessado. E o entusiasmo foi crescendo com os ensaios, porque dito pelos actores o texto é ainda mais imponente. É de uma qualidade imensa e ao mesmo tempo cruel, seco e implacável, perfeitamente adaptável aos tempos modernos, aliás como a própria situação criada comprova, dada a sua triste actualidade.

Basicamente, a situação é muito simples: dois personagens, um poderoso, porque é Governador, calmamente instalado no seu gabinete climatizado, o outro, que entra com uma bomba super potente, anunciando com a maior calma do mundo que passados alguns minutos, irá tudo pelos ares. Traz consigo, diz ele, a morte debaixo do braço.

A estreia desta peça em Portugal, fará no próximo dia 01 de Março oitenta anos exactos, foi marcada por deliciosas intrigas de bastidores, que visavam suprimir a última fala, a fim de «não ofender a decência dos ouvidos das senhoras». Com efeito, o pano chegou a cair antes do final mas, por exigência do intérprete, voltou a subir para que a réplica em causa pudesse então ser dita, conferindo, assim, mais impacto àquilo que, puritanamente, se queria censurar…

A peça foi classificada pelo teatrólogo Luiz Francisco Rebello como «a mais singular e genial obra dramática do século XX português». Este autor refere ainda que Raul Brandão sentia-se atraído pelo teatro e pelo «prestígio enorme» que, nas suas palavras, «quatro tábuas, dois ou três farrapos de lona a cheirarem a tinta exercem sobre todos os homens de imaginação». Estamos perante uma obra que deixa transparecer um sentimento do absurdo ligado ao grotesco gerado pela discrepância entre a realidade e o sonho, entre a grandeza e a abjecção, entre a morte que é a vida e o sonho da eternidade.

Considerada uma pérola da história da dramaturgia portuguesa – e em língua portuguesa - «O Doido e a Morte», é uma farsa existencial, onde talvez faça sentido falar de expressionismo, por se tratar da revolta de um indivíduo perante a crueldade, a incongruência, a abjecção do mundo moderno e porque a obra de Raul Brandão está cheia de «gritos» que fazem com que tenhamos sempre presente o quadro de Munsch, «O Grito».

A encenação inspira-se, precisamente, nesta ideia e neste paradigma. Daí a opção pela utilização das máscaras, o estilo de interpretação, os próprios adereços, figurinos, som e luz. Digamos que toda a plástica da peça, seja ela interpretativa, sonora ou visual, é o retrato de um imenso grito que pode servir, senão para acordar deste estranho sonho que é o presente, pelo menos para nos tornar mais alertas no futuro.

Finalmente, dedico este espectáculo aos actores, pelo esforço, dedicação e pelo enorme desafio que, com trabalho e talento, penso terem sabido ultrapassar.

João Branco

Próxima estreia: "O Doido e a Morte"

|


"O Doido e a Morte" estreia no dia 22 de Fevereiro
Apresntações dias 22, 23 e 25 de Fevereiro
Centro Cultural do Mindelo (Pátio)

Um Governador Civil que não gosta de trabalhar e passa o tempo a escrever peças de teatro irrealizáveis; um Milionário Louco que o visita com uma bomba numa caixa de madeira, prometendo trazer a Morte daí a 20 minutos, numa explosão que não poupará nada nem ninguém no raio de muitos quilómetros. Este é o ponto de partida da peça "O Doido e a Morte" de Raul Brandão. Uma nova produção do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo que promete ousar e não deixar ninguém indiferente.

"Quando li esta peça pela primeira vez, fiquei muito interessado. E o entusiasmo está a crescer com os ensaios, porque dito pelos actores o texto é ainda mais imponente. É um texto de uma qualidade imensa", conta o encenador João Branco. "Basicamente, a situação é muito simples: dois personagens, um poderoso, porque é Governador, calmamente instalado no seu gabinete climatizado, o outro, que entra e instala uma bomba super potente, anunciando com a maior calma do mundo que passados alguns minutos, irá tudo pelos ares. Querem situação mais actual do que essa?", questiona. "É um texto cruel, seco e implacável, perfeitamente adaptável aos tempos modernos, aliás como a própria situação criada comprova, dada a sua triste actualidade."

Quanto a outros pormenores, relativamente ao estilo de encenação, figurinos, cenografia ou adereços, o encenador prefere deixar tudo como está, ou seja, no segredo dos deuses. O único e importante «pormenor» é o facto de ser apresentado no pátio do Centro Cultural do Mindelo e não no tradicional auditório. "Quisemos experimentar um espaço alternativo. Com a crise de espaços cénicos que temos no Mindelo, queremos não só começar a procurar alternativas, como também mostrar que uma sala climatizada e bem equipada não é a única solução para quem quer fazer teatro. Há que se procurar fazer o melhor possível, com o pouco que se tem", defende o encenador.

Mas uma coisa promete: "as pessoas vão ficar surpreendidas. Podem até nem gostar do que vão ver, mas ninguém vai ficar indiferente. Procuramos dar ao espectáculo uma resposta que conseguisse estar à altura do fortíssimo texto de Raul Brandão. Era o mínimo que podíamos fazer.", enfatiza João Branco.

Com encenação e cenografia de João Branco e figurinos de Elisabete Gonçalves, a peça tem Paulo Santos e Luís Miguel Morais nos principais papeis, com uma participação especial de Sílvia Lima e do próprio João Branco, que reaparece nos palcos como actor depois de alguns anos de ausência. A apresentação no Mindelo acontecerá nos dias 22, 23 e 25 de Fevereiro (quarta. quinta e Sábado). Poderá ser vista na cidade da Praia, no decorrer do mês de Março - mês do Teatro, com duas apresentações em datas a confirmar.

A peça "O Doido e a Morte" foi classificada pelo teatrólogo Luiz Francisco Rebello como "a mais singular e genial obra dramática do século XX português". Estamos perante uma obra que deixa transparecer um sentimento do absurdo ligado ao grotesco gerado pela discrepância entre a realidade e o sonho, entre a grandeza e a abjecção, entre a morte que é a vida e o sonho da eternidade. Nada podia ser mais actual.

Considerada uma pérola da história da dramaturgia portuguesa - e em língua portuguesa - "O Doido e a Morte", é uma farsa existencial, onde talvez faça sentido falar de expressionismo, por se tratar da revolta de um indivíduo perante a crueldade, a incongruência, a abjecção do mundo moderno e porque a obra de Raul Brandão está cheia de «gritos» que fazem com que tenhamos sempre presente o quadro de Edward Munsch, «O Grito».

Segundo José Oliveira Barata, em "O Doido e a Morte", o que permanece é a impotência humana, o pessimismo ainda simbolista porque inútil e sem saída.

Raul Brandão (1867-1930)

Nasceu no Porto (Foz do Douro), em 1867, no mesmo ano literariamente auspicioso de António Nobre e Camilo Pessanha. Figuras maiores do simbolismo português, eles serão também, em momentos diferentes e por vias estético-literárias divergentes, referências absolutas para a literatura portuguesa do século XX.

Húmus, a obra-prima de Raul Brandão, ocupa um lugar à parte na história da ficção portuguesa: é um livro que se subleva contra a estruturado romance tradicional, introduzindo processos inovadores que o projectam muito para além do horizonte estético do seu tempo. Por isso, nem sempre beneficiou de uma recepção crítica que estivesse à altura de o julgar, apesar da sua assinalável repercussão num meio literário restrito.

Considerado em sentido lato como um escritor de desinência pós-naturalista ou, numa perspectiva comparatista, como um escritor “de transição”, Raul Brandão pôs radicalmente em causa as concepções estéticas vigentes na sua época, por uma vontade de ruptura indissociável da intensa vocação indagadora que sustenta a singularidade do seu projecto estético. Abolindo a oposição entre prosa e poesia, subvertendo as categorias genéricas, desvalorizando os elementos convencionais da narrativa, a ficção brandoniana antecipa as experiências mais inovadoras efectuadas no âmbito da narrativa contemporânea.