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Peça em Imagens: Romeu e Julieta (1998) II

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Peça: Romeu e Julieta (1998)
Fotografias de Cristina Peres


Que saudades deste nosso Romeu e Julieta, em pleno Rivoli da cidade do Porto! Terá sido, muito provavelmente, a série de espectáculos onde as condições técnicas foram melhores, com um inacreditável desenho de luz de César Fortes...

Personagens que falam

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«Os amantes para se amarem, não precisam de outra luz, senão da que dimana da sua própria beleza; se é verdade que o amor é cego, harmoniza-se com as trevas da noite. Vem! oh! Noite gentil! Os teus vestidos são severos e negros. Vem amável noite, de fronte carregada, entrega-me Romeu; e quando ele morrer, toma-o e transforma-o em pequeninas estrelas; voltará a sua face tão brilhante para o céu, que o mundo inteiro se apaixonará pela noite e não mais prestará homenagem ao alegre Sol! Eu já comprei palácio para o amor, mas ainda não tomei posse dele; também já não sou de mim própria e ainda não sou possuída!»

Personagem: Julieta
Peça: Romeu e Julieta
Autoria do texto citado: Shakespeare
Ano de apresentação da peça: 1998

Proscénio: cartaz Romeu e Julieta

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(pormenor do desenho)

Cartaz da peça "Romeu e Julieta"



Ano: 1997
Desenho: Luisa Queirós
Design Gráfico: João Branco

Peças em imagens: Romeu e Julieta (1998)

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@ Fotos de Cristina Peres
Romeu e Julieta a falar crioulo: Shakespeare haveria de gostar da ideia!

Uma carta especial...

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Uma Carta Especial

“Caro João Branco!Porque penso que qualquer ser humano gosta de ver o seu trabalho reconhecido, principalmente por um público anônimo e, mormente, quando de trabalho artístico se trata, gostaria de uma forma muito singela mas muito sincera, expressar-lhe o que venho sentindo quando me é dada a oportunidade de ver, sentir e apreciar uma peça teatral do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português:

Fico pura e simplesmente extasiada.

No caso concreto da peça «Romeu e Julieta» e antes de a vir ver, pensava – como será possível adaptar a peça à realidade cabo-verdiana?

Mas depois repensava – bom, com o João Branco em cena, há-de sair obra!
E saiu!

Os meus parabéns a todos os elementos do grupo e que muitos mais trabalhos sejam feitos em prol do Teatro Cabo-verdiano, do Teatro Universal.Com amizade e admiração

Mindelo, 08 de Junho de 1998

Assinatura ilegível”

O Mundo do Teatro em Cabo Verde

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Um artigo de Germano Almeida

O Mundo no Teatro em Cabo Verde
a propósito da estréia do espectáculo «Romeu e Julieta»

Se o isolamento em que vivemos ao longo dos séculos teve a vantagem de fazer com que Cabo Verde funcionasse com uma espécie de laboratório onde diversas raças e culturas se viram em forçado e estreito contacto e na maioria do tempo irmanadas pelas grandes tragédias que eram as secas que assolavam as ilhas, mas acabando por surgir desse convívio essa particular forma de estar e de ver o mundo a que chamamos cabo-verdianidade, também não podemos negar que esse mesmo isolamento é igualmente responsável por não poucas perniciosas formas de encarar a vida que acabamos alcandorando como apanágio do ilhéu, quando na verdade mais não são que a auto-suficiência de quem eternamente vive com os olhos no próprio umbigo.

Por mim sempre achei que essa ausência de contacto com o exterior, essa infelicidade de não termos que nos comparar e muito menos concorrer, tinha a suprema desvantagem de nos fazer continuar fechados nessa torre de basofaria nacional que afinal das contas é uma das principais responsáveis por atrasos a muitos e diversos níveis que recusamos reconhecer simplesmente porque isso fere o nosso incomensurável orgulho.

Ora o Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo teve o mérito de trazer pelo menos duas coisas, não apenas ao teatro cabo-verdiano, mas também à nossa sociedade em geral: primeiro, a humildade, a seguir, a percepção de que o mundo não se esgota em nós mesmos.

Essa humildade não é senão decorrência de uma abertura a outras formas de sociedade e de cultura que acabam fatalmente por se interpenetrar com a nossa pelas formas mais diferentes, mais especificamente neste caso através de adaptações de obras literárias de grandes autores que a Humanidade conheceu e que, interpretadas à luz da realidade destas ilhas e usando com instrumento o crioulo, nada perdem da sua graça e magia, mas pelo contrário como que ganham um fôlego renovado. Duas delas me marcaram particularmente: «A Casa de Nha Bernarda» e «Romeu e Julieta». Onde quer que se encontrem, tanto Garcia Lorca com Shakespeare devem ter-se sentido honrados ao verem-se adaptados e representados em crioulo de Cabo Verde.

Germano Almeida – Maio de 97

Crítica: Romeu e Julieta

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Crítica da peça «Romeu e Julieta" publicada no Jornal de Notícias (Portugal)

“A peça do grupo mindelense, que revela talento, dedicação e capacidades inesperadas numa cidade sem tradições teatrais dignas de especial referência, reuslta extremamente sedutora e conheceu um grande êxito nos palcos de Cabo Verde onde foi apresentada, apesar da economia de meios em que o grupo desenvolve a sua actividade. Tem soluções e recursos de efeito muito bem conseguidos – a utilização do espaço, o ritmo conferido ao espectáculo, o domínio da expressão corporal em momentos importantes e o resultado conseguido com a selecção musical, nomeadamente -, a que a ironia e o modo de sentir locais também conferem particular realce. A peça é apresentada como uma ‘adaptação crioula’ do texto de Shakespeare, o que no espectáculo não se resume ao uso do crioulo (aliás perfeitamente entendível), a par do português, mas significa sobretudo uma actualização de um tema que não conhece fronteiras temporais e, por outro lado, a sua ‘localização’ num contexto próprio, que é o da cidade do Mindelo. Existe aí uma alegada e tradicional rivalidade entre os bairros de Ribeira Bote e Monte Sossego, e João Branco e a sua equipa introduziram esse facto como elemento lexical, digamos assim (podiam-se dar mais exemplos, como o ambiente da Praça Nova), de u mundo onde o espectador cabo-verdiano melhor se pode reconhecer, ainda que outros públicos apercebam igualmente do sentido e dos efeitos pretendidos. (...) Cabo Verde e a sua rica história cultural ajudam-nos a compreender que um grupo de teatro com seis anos possa surpreender-nos desta maneira e demonstre possuir uma idéia clara do que está a fazer.”
José Gomes Bandeira – Jornal de Notícias 09/05/99

Historial: o primeiro Shakespeare

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@ "Romeu e Julieta" (1998) - foto de Cristina Peres

Foi a primeira vez, e essa nunca se esquece.

No dia de Maio de 1998, o GTCCPM estreiava a peça "Romeu e Julieta", de William Shakespeare. Pela primeira vez na história do teatro cabo-verdiano, o maior dramaturgo de todos os tempos «falava» em língua di terra.



Romeu e Julieta

Ficha Técnica

Adaptação e Encenação
João Branco
Assistentes de Encenação
Carla Sequeira e Paulo Cabral
Coordenação na tradução para o crioulo
Mário Matos
Cenografia
João Branco e Paulo Miranda
Figurinos
Anilda Rafael
Desenho de luzes
César Fortes
Som
Anselmo Fortes
Aderecista
António Coelho

Actores / Actrizes

1. OS CARDOSOS DE MONTE SOSSEGO

Ludmila Évora: julieta
Anilda Rafael: sra. Cardoso – mãe de julieta
Manuel Estevão (actor convidado): sr. cardoso – pai de julieta
Nelson Rocha: teobaldo – primo de julieta
Zenaida Alfama: ama – criada da família cardoso
Paulo Cabral: paris – noivo prometido de julieta
Reolando Andrade: abrão – companheiro de teobaldo
Roseno Rocha / João Paulo Brito: companheiro de teobaldo
Nilton Sequeira / Marlon Costa: companheiro de teobaldo

2. OS MONTEIROS DE RIBEIRA BOTE

Flávio Leite: romeu
Paulo Miranda: mercúrio (maior amigo de romeu)
Arlindo Rocha: benvindo (primo de romeu)
Edson Gomes: gregório (amigo de benvindo)
Hélder Antunes: companheiro de benvindo
António Coelho: companheiro de benvindo
Ângelo Gonçalves: pai de romeu
Maria da Luz Faria / Maria Auxilia Cruz: mãe de romeu

3. OS NEUTRAIS

João Branco / José Évora: frei lourenço
Jorge Ramos / João Branco: principe – autoridade local
Dijenira Margarete / Elisabete Gonçalves: rosalina
José Évora / João Paulo Brito: narrador e vendedor


Apresentação

Dias 30 e 31 de Maio e 5, 6 e 7 de Junho de 1998, no Centro Cultural do Mindelo
Dias 7, 8 e 9 de Maio de 1999, no Grande Auditório do Teatro Rivoli (Porto)
- Participação no Ciclo Morrer D’Amor -


A CONFIRMAÇÃO DE UM PERCURSO
De Corpo e alma
Ou o Diabo os leve a ambos

Texto inserido no programa da peça «Romeu e Julieta»


"Shakespeare, de quem não há dúvida era o mais dotado autor inglês e talvez o maior dramaturgo de toda a história do teatro, escreveu em inglês, para os ingleses da era isabelina e cremos, sem pensar muito na posteridade ou de que algum dia pudesse ser traduzido e adaptado no crioulo de Cabo Verde (oxalá um dia o seja!)"

Leão Lopes in "O que poderá ser o teatro cabo-verdiano no futuro" edição Revista Mindelact nº0, pag.27, jan-jul 97


O Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo gosta de arriscar. Basta ver o seu historial. Depois de Albert Camus, Oscar Wilde, Victor Hugo e Garcia Lorca chegou a vez do unanimemente considerado o maior dramaturgo da história do teatro: Willian Shakespeare e daquela que é, porventura, uma das suas obras mais populares e mais adaptadas ao longo dos tempos: Romeu e Julieta. Apesar das velhas e gastas discussões sobre se perde desta forma o nosso teatro a sua identidade cabo-verdiana - nós sempre defendemos que não - este tem sido por agora o caminho escolhido pelo grupo e com o mais importante dos resultados: salas cheias, pessoas satisfeitas, risos e lágrimas, sinergia comum entre quem está no palco e quem assiste aos espectáculos.

Teatro de qualidade sempre foi o nosso desafio. Se é verdade que os nossos parâmetros e exigências próprias tem aumentado, o público, o nosso público, em crescendo e reconquistado a cada nova estreia, (e já lá vão 17 produções) sempre foi e sempre será soberano. A conclusão de que determinada aposta foi ganha nunca será feita por nós, parte interessada, e cuja análise do objecto artístico nunca poderá ser desinteressada e desligada do sentimento generalizado de que tudo foi feito para ser apresentada uma obra no mínimo interessante e cativante. Essa análise sempre foi e sempre será feita pelo outro lado. O público. E este, perdoem-me os fundamentalistas que insistem numa retórica que chega a ser intelectualmente desonesta, tem-nos dado carta branca para continuar. É o que faremos enquanto se mantiver acesa esta paixão que todos os membros deste grupo sentem pelas artes dramáticas, enquanto que os actores e actrizes que todos os anos "lançamos" nesta aventura mostrarem o talento e a coragem que evidenciam, mais uma vez, neste espectáculo.

Esta é uma adaptação moderna do texto shakespeareano, não se tendo procurado uma boa adaptação da peça, no sentido de manter a fidelidade absoluta à concepção original, mas sim rever e transpor a história para os tempos modernos, através de uma linguagem teatral que as novas gerações possam absorver mais facilmente.

De qualquer maneira, a grande maioria das palavras usadas na peça, são directamente originárias da pena genial do dramaturgo inglês. Os diálogos e monólogos, cuidadosamente traduzidos para o crioulo pelo Sr. Mário Matos, foram respeitados (e como ficam belos muitos excertos de Shakespeare traduzidos e falados em crioulo!). A adaptação sofreu alguns cortes, resultado de uma necessidade de modernização do texto original e de um maior ritmo e pulsar da peça, mais ao estilo dos frenéticos anos 90. Mas é curioso verificar como todo o texto que fica, apesar de escrito há mais de duzentos anos, se mantém actual. Aqui, a universalidade, não é só espacial mas também temporal, o que comprova a genialidade do autor.

Mindelo dos anos noventa e a sua juventude são retratados como a vemos hoje todos os dias. As suas guerras, as suas paixões, as suas roupas (predominância absoluta para o branco e preto), os seus tiques. A influência da cultura anglo-saxônica, mormente norte americana, bastante vincada na nossa juventude de hoje, principalmente do Mindelo, está presente ao longo do espectáculo. O sentido de humor e a fina ironia, que pensamos ser uma das mais peculiares características do cidadão do Mindelo, assim como de muitos textos de Shakespeare, estão também presentes ao longo de todo o espectáculo, em muitos dos personagens e em várias das peripécias ao longo do desenrolar da história, que de qualquer forma, mantém o seu cunho extremamente dramático.

A história é a mesma de sempre. Amantes de famílias rivais, neste caso oriundas de dois bairros do Mindelo, - Ribeira Bote e Monte Sossego - o amor impossível e a tragédia final. No fundo é também, e de certa forma, o exacerbar do amor físico. Romeu desiste do amor de outra, e ambos se entusiasmam pela mera aparência um do outro, numa cena que se poderia passar (quantas vezes se passa…) na nossa Praça Nova, num sábado à noite.

O romantismo que hoje é assumido pelos jovens de forma superficial e ligeira, quase leviana, por vezes com grandes distâncias entre o que se diz e o que se faz na vida, tem nesta história um tratamento o mais sincero possível. Acreditamos que o verdadeiro romantismo, e que paira latente e envergonhado sobre as nossas cabeças, se possa revelar nos corações adormecidos de quem vir esta história de amor, do nosso Romeu e da nossa Julieta, jovens cabo-verdianos, sem preconceitos nem medos de sentir a magia do verdadeiro amor vivido. De corpo e alma, ou o Diabo os leve a ambos.

Maio 98 / João Branco

MÁRIO MATOS – COORDENADOR NA TRADUÇÃO PARA O CRIOULO

Escrever em crioulo não é fácil. Mas também não é difícil. Tudo depende do assunto a tratar.

No caso de "Romeu e Julieta", não foi fácil. É uma peça teatral daquele que foi o maior poeta dramático da Inglaterra – Willian Shakespeare.

A dificuldade era passar para o crioulo uma peça dramática, traduzida do inglês para o português. Era preciso manter todo o dramatismo que Shakespeare pôs na sua obra. Esta é que foi a maior dificuldade.

De parabéns está o Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, no prosseguimento desta nova forma de fazer teatro.

Maio 98 / Mário Matos