Historial: "Os Dois Irmãos" (1999)

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Esta produção teatral marcou, por várias razões. Entre as mais significativas estão o facto de dramatizar um dos mais geniais romances de Germano Almeida, de ter colocado um grupo de teatro mindelense a contar uma história de Santiago, sem precisar de recurso folclorista para se mostrar "genuíno" e porque foi para este espectáculo que Orlando Pantera compôs temas originais...


Um desafio Fascinante
Texto inserido no programa da peça «Os Dois Irmãos»

Estes dois irmãos andam-me a perseguir há já algum tempo, André e João, irmãos de sangue de uma qualquer rubêra do interior de Santiago, povoam o meu imaginário dede o dia em que li o romance de Germano Almeida. Um projecto que foi sendo sucessivamente adiado, substituído por outros, não pela sua menor importância, mas antes pela enorme responsabilidade que para nós representava pôr no palco um romance do mais popular e mediático escritor cabo-verdiano. Depois, o romance escolhido, “Os Dois Irmãos”, apresenta uma dramaticidade tal, que nos admiramos não só pela beleza do livro – mas sobre isso escreverá melhor do eu a Ana Cordeiro – mas sobretudo por este ainda não ter sido adaptado ao cinema, à televisão ou, até agora, ao teatro. Se o ponto de partida fundamental para qualquer projecto audiovisual é uma boa história, então este romance é matéria-prima de finíssima qualidade. Aliás, desta mina de talento que é o Germano Almeida, haverá com certeza muitos outros filões por explorar, que proporcionarão no futuro mais filmes, séries de televisão ou peças de teatro, embora seja uma pena que o escritor nos «obrigue» a queimar muitos e indispensáveis neurónios nas adaptações, já que, como ele próprio já nos repetiu, dificilmente se aventurará por esse campo tão complexo que é, sem dúvida, o da dramaturgia, para grande lamento nosso. Até porque nos facilitava o trabalho.

Mas desta vez é que foi. Partimos para a adaptação, eu e o Francisco Cruz, ficando muitas vezes com os olhos em bico com a complexidade da estrutura narrativa do autor, que salta no tempo, de uma linha para a outra, com que imune a qualquer tipo de regra naturalmente aceite para uma forma de escrita mais rígida (e ainda bem que assim é!).

Alguns meses de trabalho foi quanto durou a adaptação, partindo de um pressuposto de encenação que sempre foi para nós bastante claro: a peça deveria retratar o julgamento de André, efectuado na escola primária do local onde o crime teve lugar. A partir daí, foi para nós interessante, e esperamos que o seja para o nosso público, escolher as situações que no local foram determinantes para a ocorrência do horrendo e inexplicável crime. Porque num aspecto o livro – escrito a partir de uma história verídica, diga-se de passagem – é claro: André, então emigrado em Lisboa, não regressou a casa para consumar nenhum tipo de vingança contra o irmão. Nem ficou claro se o que o pai viu, e que originou a carta escrita ao filho emigrado contando a suposta traição do irmão, realmente aconteceu. O mais dramático de toda a situação é o facto de, provavelmente, a traição de João – uma alegada relação sexual com a mulher com quem André casara apressadamente antes de partir para o estrangeiro – nunca ter realmente acontecido e tudo não ter sido senão o resultado da imaginação delirante de um homem já idoso, muito agarrado aos conceitos da honra e tradição familiar. Dar a perceber, e colocar isso no palco, toda a carga negativa que se gerou na aldeia pelo facto de André não consumar a vingança contra o irmão logo após a sua chegada, e descrever o desenvolvimento que acabou por consumar o que todos esperavam que acontecesse desde a primeira hora, eis o grande desafio do nosso grupo, porque só criando esse ambiente se conseguiria captar a verdadeira essência da obra.

Tivemos várias vezes que conversar com o escritor para saber mais pormenores sobre o julgamento. Assistimos a vários julgamentos actuais, para perceber como decorrem normalmente os processos judiciais e o funcionamento de um tribunal. Estudamos, com todo o cuidado, o envolvimento geográfico da história, ou seja, o interior de Santiago, com a preocupação de sermos fiéis ao crioulo local, aos costumes e aos figurinos, numa história acontecida pouco depois da independência nacional. Foi para nós de enorme importância a colaboração de muitas pessoas de Santiago, com quem tivemos a preocupação de estar em contacto, de levar para os ensaios, não só para uma questão de controle da língua, mas também para sentir se o caminho escolhido para captar o espírito dessa região, naquela época, estava a ser correctamente delineado.

Podemos afirmar, e temos consciência disso, que não deixa de ser uma grande ousadia, um grupo de sampadjudos concretizarem um espectáculo feito a partir de uma obra literária que retrata de uma forma tão brilhante a cultura e a vivência de uma comunidade do interior da ilha de Santiago, tão rica, e ao mesmo tempo, tão misteriosa. Foi para nós um desafio que foi sendo superado dia a dia, nos ensaios, até porque a qualidade literária do guião dramatúrgico, quase na totalidade saído das páginas do romance adaptado, nos aumentava o prazer de concretizar este trabalho cénico. Esperamos, sinceramente, que este prazer seja compartilhado por todos quantos vejam este espectáculo.

O cenário, concebido pelo artista Manuel Dias, baseia-se na concepção de que estamos num tribunal adaptado, dentro de uma sala de aula de uma escola primária. Os flash-back’s que a toda a hora nos levam a viajar até ao cerne dos acontecimentos, foi concebido de forma a dar uma outra dimensão estética e temporal, para que mais facilmente possamos ser transportados para o interior daquela aldeia. O público, durante todas as cenas do julgamento, faz parte do cenário. São a audiência do tribunal, e como tal são levados a agir, inclusive com o pedido de se levantarem para a entrada do juiz. Todos esperamos que durante o normal desenrolar de todo o processo judicial não haja a necessidade de solicitar a intervenção das forças policiais para que o respeito ao tribunal não seja nunca posto em causa. O público é assim convidado a participar nesse jogo do fazer teatral, que a todos dá prazer, já que sem ele, não se justifica a presença de nenhum dos elementos integrantes desta forma de expressão artística.

O músico Orlando Pantera, profundo conhecedor da cultura daquela região do país, é um trunfo importante, que com grande orgulho integramos na ficha artística. Ao convite, de imediato pôs mãos à obra, não só concebendo temas inéditos, como gravando, em exclusivo, outros temas já compostos e da sua autoria, que se adaptassem às diversas peripécias da estrutura narrativa. O talento de Orlando Pantera fica patente em cada um dos sons deste espectáculo e dá a esta produção uma cor que, na nossa opinião, em muito contribui para um mais fiel retrato social e regional da história.

Finalmente, falar dos actores, principais obreiros desta produção. Foram exemplares na forma como procuraram assimilar uma realidade cultural e social que não é de forma alguma a deles, da qual muitas vezes se sentiam afastados, devido a alguns discursos demasiado bairristas, que infelizmente ainda hoje são uma realidade no nosso país e que servem só para afastar umas das outras as diferentes vertentes culturais do povo cabo-verdiano. Com o talento demonstrado por estes actores ao longo dos ensaios é para o encenador um privilégio trabalhar. O esforço, a dedicação e talento mais uma vez demonstrados, é como que uma imagem deste grupo de teatro, que comemora com esta fascinante história, as suas 20 produções teatrais, em seis anos de existência, facto mais do que qualquer outro, valerá para uma avaliação do que toda esta boa gente tem feito e contribuído para uma verdadeira e sustentada evolução das artes cénicas em Cabo Verde.

Março 99 / João Branco

Os Dois Irmãos

Ficha Técnica

Encenação
João Branco

Adaptação Dramatúrgica
Francisco Cruz

Cenografia
Manuel Dias

Música Original
Orlando Pantera

Figurinos
Anilda Rafael

Desenho de luzes
César Fortes

Sonoplastia
Anselmo Fortes

Aderecista
Helder Antunes

Assistente de ensaios
Elísio Leite

Actores / Actrizes
José Évora – André
Jorge Ramos – João
Francisco Cruz – pai
Gabriela Graça - mãe
Ângelo Gonçalves - Juiz
Flávio Leite - Agente do Ministério Público
Manuel Estevão - Advogado de defesa
Nelson Rocha - Oficial de diligências
Manuel Dias – Domenico
Elísio Leite – Furtado
Arlindo Rocha – Pedro Miguel
Carla Sequeira – Maria Joana e batucadeira
Zenaida Alfama – Vizinha
Edson Gomes – João o Tanso
António Coelho – pai de Maria Joana
Odair Lima – polícia
Elisabete Gonçalves – batucadeira

Apresentação
Dias 26, 27 e 28 de Março e 2, 3 e 4 de Abril de 1999, no Centro Cultural do Mindelo

1 comentários:

Eileen disse...

Ainda tenho "dois manos... dois irmon" na cabeça desde essa vez. Pantera está brilhante na peça. Os actores também. Foi um grande, grande espectáculo!